sábado, 31 de agosto de 2019

ELES ESTAVAM LÁ


ELES ESTAVAM LÁ
20/08/2019
Simplesmente aconteceu. Entrei na rede social e ele me convidando a ser atrevido, sensual, mostrar como sou. Não pensei.
E passei andar de lado a outro sem dar conta de escrever o livro. A narrativa não se desenvolvia e os personagens apagados. Aquela relação on-line me fazia pensar apenas no prazer .
O apartamento de Odília, tão aconchegante, me senti em casa. O marido dela em viagem. Todos éramos amigos e confidentes. Estávamos bebendo quando Edil chegou com o jeito tímido. Ele era como eu, mas diferente de mim, tateava esse espaço com cautela. Queria alguém que valesse a pena.
― Está se encontrando com ele? ― me perguntou Edil.
― Sim. Não quer se revelar.
― Não tem interesse em conhecê-lo? ― interviu Odília.
― Vou deixar rolar.
A bebedeira foi longe demais. Edil não se sentiu bem e o levamos para o quarto. Quando acordei, levei um tremendo susto. Odília e eu desnudos no sofá. Enquanto ela dormia, vesti a roupa e desapareci. A cabeça pesada. Por uma semana me distanciei dos dois amigos.
― Por que desapareceu? Ligo e não atende, não dá notícia. ― Edil entrando no meu apartamento.
― Compromissos. Tenho prazo para o livro e não consigo escrever.
― Quer me dizer algo? Edil insistiu.
― Como assim?
― Tem visto Odília? Se encontraram?
― Não.
― Não aguento. Vi vocês naquele dia da bebedeira quando fui ao banheiro. Esperava que me contasse.
― Não contei porque me envergonho. Odília não merecia. Fomos namorados naquele tempo, mas não justifica. Eu não tinha esse direito.
― Vocês precisam conversar.
Odília e eu chegamos à conclusão que o melhor seria esquecer. Estávamos embriagados, foi algo sem sentido.
Voltei ao trabalho. Não produzia. Página em branco.
Odília convocou a gente, tinha novidade.
― Estou grávida de quatro semanas! ― falou sem rodeios.
― Que notícia boa, seu marido já sabe? ― Eu comemorei.
― Não contei a vocês. Ele é estéril e desejo muito essa criança. Quero ser mãe.
― Mas então? Eu? Eu! E eu não tenho escolha? Não estou preparado para ser pai.
― Não estou cobrando. Amanhã viajo para contar ao meu marido.
O casamento de Odília acabara. Eu continuava na relação, mas com o passar do tempo, questionando minha posição. Estava me apaixonando e propus que nos conhecêssemos. O outro lado com um clique desapareceu. Tomei consciência tarde demais. Receei do caso vir à tona, com gravação dos encontros. Contei a angústia aos amigos.
― Estamos ao seu lado ― disse Odília. Edil confirmou. Nos abraçamos.

Obs.: Criado a partir do filme Segredo a caminho.

sábado, 10 de agosto de 2019

O MAR COMO EXEMPLO

O MAR COMO EXEMPLO
            06/08/2019
Santiago desconhecia a vida num grande centro urbano. Fechado àquele mundo rural, cercado por mata de inatingível tamanho, o horizonte moldado por imensas montanhas verdes. O caminho disponível apenas à pé e raramente cavalo. Poderia parecer incredulidade que ainda existisse mundo livre da selvageria das grandes cidades, de corruptos, de corruptores, de vaza jato, de tanta bestialidade e fake news. Esse mundo existia sim e ali vivia a família de agricultores, numa vida legítima, respeitosa com a natureza, valorizando a agroecologia como algo natural, o respeito ao que a grande mãe terra dispõe. Por lá nem mesmo chegara luz elétrica.
            
A professora local apresentou aos alunos a disponibilidade de bolsa de estudo para quem escrevesse sobre o mar. A bolsa daria direito ao estudo acadêmico englobando passagem, material e estadia numa universidade social e tal proposta era para os que viviam no interior, uma oportunidade de desenvolvimento da capacidade de gestão na vida do campo. A professora reconhecia, vocês alcançaram condição nas diversas matérias ligadas ao curso de segundo grau, esse não é o problema. Ela soube trabalhar seu método de ensino e encontrou pessoas com ânsia de conhecimento. A professora passou à pergunta:
    
― Sabemos que a tecnologia está presente no mundo contemporâneo, apesar de ainda estarmos distante de acesso. Alguém conhece o mar? ― Ninguém levantou a mão. ― Escrevam sobre isso, temos tempo.

A classe efervescia. Jovens falando ao mesmo tempo. Santiago, ao invés de expressar-se na confusão, passou à proposta feita pela professora.
            
Santiago lembrou-se do Velho e o mar de Hemingway. E a história se tornando vívida em seus pensamentos. O vento que soprava às vezes ao norte outras ao sul na distante ilha. O velho, o menino, ambos, adoravam o mar, o respeitavam, era de onde tiravam a sobrevivência. Reconheciam a potência das águas e habilidade necessária para guiar o remo do barco aos ventos favoráveis. Eram pescadores, o velho de olhos da cor do mar, alegres e indomáveis, tinha a experiência e ligeireza no domínio da embarcação em alto mar. O menino franzino e esperto aos ensinamentos do velho tinha o olhar para o futuro, mas o que mais gostava era da companhia daquele velho diferente de outros pescadores, que sabia respeitar o mar dócil ou voraz, e o menino queria ser bom pescador. Foi através da história do sonho com a África, e o mar visto pelo garoto do sonho, com extensas praias douradas e areias branquinhas que feriam os olhos e que de longe avistava montanhas diferentes da dele, montanhas castanhas, que Santiago imaginou a beleza e a imensidão daquelas águas, tão diferentes dos rios e cachoeiras de sua terra. O velho vivia em outro lugar agora, mas nos sonhos escutava o marulhar das ondas, os barcos singrando as águas, e Santiago sentiu o mesmo aroma que o velho enquanto sonhava. O aroma da África soprada pela brisa. Há tempos somente sonhava com os leões na praia, brincando como gatinhos. E quando acordava, o velho tinha a companhia do menino durante o café. O velho ia pescar sozinho no barco, estava sem sorte, voltava muitos dias sem peixe. O pai do menino não quis o filho vivendo a má sorte do velho, mesmo assim no fim do dia, o menino esperava a volta do velho amigo. Enquanto o velho velejava ia pensando nas tão delicadas aves que precisavam se alimentar e na vida dura que tinham, até mais dura que a dos homens. E o velho falava consigo próprio, às vezes o mar se torna tão bravio e violento, mesmo sendo o mar tão belo e generoso, podia se transformar rapidamente e as frágeis aves sofriam os reveses. Também pensava o mar como la mar, em espanhol mar é feminino, e alguns lhe davam nomes durante o trajeto. Tinham aqueles que preferiam o nome el mar, pois viam o mar como adversário ou inimigo. Mas o velho, o velho sempre via o mar como feminino, ou como coisa que concedesse ou negasse grandes favores, e filosofava, “a lua afeta o mar tal como afeta as mulheres”. Toda aventura do velho na imensidão do mar, os reflexos que o sol produzia na água e ele prestando atenção quando se tornava alto e as nuvens acima. O velho gostava das tartarugas verdes e amigáveis e lembrava-se daquelas que adormeciam na superfície e amanheciam sem pés, comidos pelos peixes. Muitos pescadores não tinham pena delas, mesmo sabendo que o coração das tartarugas continuavam a palpitar muitas horas depois de mortas, e o velho pensava, tenho um coração assim, e mãos e pés. Quando observava andorinhas voando e circulando um trecho, reconhecia, ali tem peixe e singrava para lá. O mar azul se perdendo no horizonte e o velho reconhecia o quanto estava só, olhava a água profunda, a linha à frente do barco, a ondulação calma do mar, e lembrava do medo que muitos pescadores tinham de se afastar da costa. Lembrou-se do ciclone que avisava muitos dias antes, era somente ler os sinais no céu. Sabia as tempestades que viriam, e quando não havia sinal de tempestade ou ciclone. O mar e aquele enorme peixe que o velho sabiamente pescou e que continuou a lutar por sua liberdade naquelas águas oceânicas. O mar salgado que salgava o peixe. O velho exausto de lutar com o peixe, começava a sonhar com as imensas praias amarelas com tantos leões e seu olhar sobre a proa do barco, avistando a brisa da noite, com o imenso peixe ainda puxando, ainda arrastando o barco. O mar às vezes se agitava. O velho precisava defender-se, o peixe arisco lutava, e o mar com mais de milha de profundidade. O peixe saltava da água e depois flutuava ao sabor das ondas. O velho firme, apesar da fraqueza das mãos a sangue vivo e as pernas cedendo à fome, não deixava de lutar, sabia que uma hora o peixe se cansaria e nesse momento lhe lançou o arpão até o coração. O peixe enorme que levaria até a praia da ilha. Mas o sangue jorrando no grande mar atiçou a voracidade dos tubarões, e não deram sossego ao velho pescador, que chegou em terra apenas com a carcaça do peixe ao lado de uma das proas do barco. O menino encontrou o velho exausto e ambos descobriram que o velho vencera o peixe, o problema foi depois do peixe. O velho e o menino decidiram que da próxima vez pescariam juntos.

          A professora informou que o tempo se esgotara. Santiago entregou o trabalho à professora, consciente que ele, tal como o velho e o menino, tinha sonhos e os sonhos dão esperança àqueles que lutam.

domingo, 21 de julho de 2019

UM MUNDO HUMANO

   Assisti o filme de 2016, Capitão Fantástico e fiquei apaixonada pelo papel do ator principal. Que beleza de ensinamento, de conduta ética, de orientação educacional, de valorização do homem e dos direitos humanos e conheci mais também sobre Noam Chomsky e sua luta desde tempos da juventude e contínua luta pelos direitos humanos.

   Durante toda a película eu ficava intrigada com a habilidade do Capitão Fantástico de cuidar de sua grande família impossibilitada da presença da mãe. A habilidade de tratar cada tema com cada um dos filhos, não importando a idade, não de forma autoritária - isso não aconteceu em nenhum instante do filme - mas sim com autoridade, o que é completamente diferente. Todo o tempo explorou ao máximo as habilidades e potencialidades dos filhos e todos podiam expressar suas dúvidas, contestações, exposição de ideias e mesmo em situações de pressão mostrou humildade e respeito aos pontos de vista dos filhos, o que gerou nele alguns questionamentos se estava indo para o caminho correto.

   A história é triste ao se pensar sobre a falta da mãe. Mas ele levou adiante o sonho que ambos imaginaram, criar os filhos livres em um lugar rústico, onde cada um tinha sua tarefa no desenvolvimento e sobrevivência da família. O questionamento da sociedade instituída e a tecitura de pontos relevantes às muitas questões que abalam nossa sociedade, um sistema que tem se mostrado inadequado em atender às diversidades de sujeitos, e a história sensibiliza e traz o fundamental, o quanto necessitamos parar e pensar como estamos criando pessoas despreparadas para a convivência social, respeitosa e humana.

   Eu quero o mundo idealizado pelo Capitão Fantástico. Um mundo humano! 

domingo, 30 de junho de 2019

AVENTURA NO OUTRO MUNDO: DUBLIN ATENAS ROMA

30/06/2019

Aqui estou em plena aventura nas terras europeias. De simples intenção de viagem para o estudo da língua inglesa em Dublin, o desejo e ambição de conhecer mais da história da humanidade me fez atrever e chegar às cidades de Atenas e Roma. E realmente tem valido a pena cada instante de descoberta. Na última hora o marido animou me fazer companhia.

Dublin. A passagem por Dublin foi muito importante para a desinibição linguística. Claro, continuo no inglês básico, mas entendendo melhor através da escuta o acento característico da língua de origem germânica anglo-saxônica. Apesar de que na Irlanda quando duas pessoas estão conversando, se nativas, é muito difícil entender a primeira língua irlandesa, o gaélico (originário do céltico). Mas eles facilmente mudam o linguajar devido a proeminência de turistas e usam o inglês como segunda língua. Outra observação interessante é a variedade de cafés por toda a cidade, o que traz aconchego nos momentos em que frio, ventania e chuva aparecem.








Inclusive fomos a um delicioso café e serviam o ‘the best coffee’, veja a foto...


A cidade de Dublin é tão cosmopolita quanto Paris ou Nova York e me surpreendi ao extremo por ver a quantidade de brasileiros migrados por lá, o que de certa forma me salvou em determinados momentos, mas também me fez acomodar e entoar o nosso português.

            Ao chegar no hostel, ainda assustada me deparei com um brasileiro que estava chegando para trabalhar e sem conhecer nada de inglês, a não ser os conceitos básicos obtidos na escola pública. Ele tinha apenas um mês para entender pelo menos o nível intermediário de inglês para a função que seria designado. No hostel, éramos os únicos brasileiros, mas tinham muitos latinos.

Estava em pé num ônibus indo para uma visita ao Centro Cultural James Joyce e de repente ouço o rapaz sentado à minha frente conversando em português no celular, contando como estava sendo a saga dele e de colegas: alguns custavam conseguir a entonação e trabalho lingual e labial do “th” característico. Antes de descer conversei um pouco com ele e me disse estar em Dublin há oito meses, muito novinho e enfrentando a batalha por trabalho, disse sentir-se solitário, com saudade da família, mas foi a escolha e não se arrependia. Os tempos estão duros para jovens brasileiros no Brasil com a recessão brava explícita e o desemprego, muitos optaram por deixar o país, às vezes, por trabalho inferior, mas ganho em euro. Não sei se boa opção, já que o gasto também é em euro, mas quando se é jovem essas aventuras trazem amadurecimento.

            Dublin me surpreendeu ainda mais positivamente por outros detalhes. Apesar da proximidade com a Inglaterra, os nativos não são tão distantes e áridos para com o estrangeiro, apesar de que os novos tempos europeus estão ficando mais duros quanto ao aspecto migratório. Mesmo assim, alguns se atrevem a dizer que os preconceitos que vivenciam no estrangeiro são menos expressivos do que quando viviam no Brasil.

Dublin é chamada a cidade europeia mais brasileira, dando menção ao aspecto alegre e espontâneo do povo, são soltos, relaxados, apesar da obediência às regras de convivência. A educação é fator nítido a simples olhar.

Longe do centro de Dublin, mas com a oferta do Tram, em poucos minutos e com razoável conforto chegávamos à cidade. Como é evoluída esta questão de transporte por aqui. É pena olhares de governantes do Brasil não atentarem para políticas públicas de transporte, nossos metrôs não avançam e nem outras ofertas coerentes.

Estando no centro de Dublin,  a visita aos monumentos principais a pé. E, como não poderia deixar de ser, encerrávamos no espaço designado Temple Bar, área dedicada a gastronomia popular irlandesa e outras opções, sem faltar o bom chope gelado e canção folclórica da terra. Astral delicioso do local, mas se vê a pobreza rodeando também.


Também conhecemos a costa litorânea da cidade.



Do clima de verão de Dublin, máximo de treze graus, nublado e com garoas, uso de roupas duplas para aguentar o frio por quinze dias, para o escaldante calor de Atenas, com trinta e dois graus. Lotada de europeus que buscam o clima festivo para o período de férias.

Atenas. Atenas é mesmo apaixonante. A cada monumento a gente se sente estremecer, imaginando os sussurros da alma humana desde tempos antigos e sentindo a energia oriunda em cada local. A comida grega, de origem mediterrânea, muito saborosa. O hotel simples, mas posicionado em área privilegiada bem no centro de Atenas, chamada de Plaka, valeu a pena por possibilitar o turismo de andarilho, peregrinando a cada ruína e se encantando com a arqueologia das construções. Bastante interessante que a água que se bebe em restaurantes normalmente não é cobrada, é grátis. Nesses tempos neoliberais que se cobram por tudo, é uma agradável surpresa. Por seis dias foi possível ver através de uma pequena janela a real imensidão dos tempos gregos até a conquista da terra pelos romanos. Uma herança arqueológica deslumbrante.






Roma.  Roma é emocionante, maravilhosa, sedutora, faz a gente amá-la para sempre de tanta beleza indescritível por todos os lados, realmente a cidade eterna, diferentemente de Atenas que tem mais ruínas e de tempos bem antigos. Roma também tem algumas antigas mas que foram sendo preservadas por governantes. Também em Roma ficamos numa área mais central, Monti, num hotel simples e foi possível fazer todos os passeios aos monumentos, inclusive ao Vaticano, a pé. Caminhando em média de onze a doze quilômetros por dia/sete dias e a história exposta aos olhares estupefatos de turistas. A comida é capítulo à parte, pastas, pizzas, maravilhosas, e de sabor extraordinário. Muitos bistrôs com preços amenos.

Como são diferentes os países de origem latina. Povo conversa alto, expressa a emoção à flor da pele. Que nem a gente. Apenas duas coisas incomodaram em Roma, a primeira, a sirene de alerta usada para emergências hospitalares, incêndio, polícia... extremamente forte e deixa uma tensão no ambiente, para dizer a verdade, dói os tímpanos. Será que nossas sirenes são sentidas assim para o turista? A segunda foi ser passados para trás por alguns vendedores e motoristas de táxi (aumento de itinerário e cobrança além do combinado) no troco em euros, alguns viajantes tinham avisado que isso poderia acontecer em Roma.










Finalizando, não posso deixar de mencionar que necessitei da ajuda de alguns blogs bem maneiros para elaborar o roteiro e viajar bem em conta:
            Como disse o filho: “vocês estão tendo vida de novela”, apesar de contar a história sob meu ponto de vista, o marido foi ótima companhia de viagem. Agora, retornando ao Brasil. A realidade é ponto de estabilidade necessária também. Até a próxima!

* Publicado no horário europeu.

terça-feira, 28 de maio de 2019

DANÇAR A DANÇA

Artesanato mineiro em garrafa PET
   O mês de maio está se manifestando um mês difícil em inspiração. Resolvido que o projeto viagem de investimento no idioma inglês chegou no momento decisivo. Este pequeno projeto tem tomado toda a energia, por que além de roteiros, tem-se que planejar uma viagem tipo mochileira, em plenos trinta e sete anos kkk. Pois é, não dá para tardar muito quando se chega aos trinta e sete, mesmo a grana sendo curta. E cheguei. O ânimo parece de adolescente, mas o corpo já não obedece, teimosamente os sessenta e três vão deixando sequelas, umas aqui, outras ali, kkkk somente rindo mesmo é que se vai atrevendo.

   Claro que não é nada diferenciado. Quantas mulheres e até com mais idade já estão fazendo isso. Vivendo uma viagem de intercâmbio depois que os filhos estão crescidos. Mas vou dizer uma coisa: estou morrendo de medo kkk e a ansiedade vem boicotando a minha já difícil inspiração amadorística kkk. E como não poderia em hipótese alguma entregar os pontos e deixar maio em branco, decidi me confessar através da escrita.

   Quando acontecer de verdade,  o momento X decisivo, talvez eu possa expor a experiência, talvez eu consiga sair desse instante paralisante e dar o testemunho de que viver os trinta e sete, de que forma for, com aventura ou sem aventura, é sim um verdadeiro casamento, digno do mês das noivas, e de branco não restará nem páginas.

   See you later!  

quarta-feira, 1 de maio de 2019

GÊNESIS TECNOLÓGICO

GÊNESIS TECNOLÓGICO
            30/04/2019
À medida que lia a mensagem no whatsapp o coração acelerava. Quando terminou a leitura lágrimas emergiram. Não conversava com ninguém. Ninguém estava à sua frente. Eram apenas mensagens de um ser tecnológico, o celular, que reproduzia palavra e linguagem ao toque do teclado. E sofria ao ler? 
Do outro lado a pessoa que enviara a mensagem, esta sim de carne e osso, mas o celular, aparelho sem sentimento, sem emoção, sem pingo de sensibilidade e humanidade.
            Chorou durante algum tempo. Há tanto tempo não chorava. Não que achasse incorreto fazê-lo, mas com qual objetivo? Limpeza dos olhos, limpeza da angústia, ou satisfação pelo derramamento? Na verdade definiu que a pressão interior estava intensa. Talvez lágrimas depressivas, talvez lágrimas de tristeza, talvez lágrimas de alegria. 
           Quisera estar lá enquanto a mensagem se processava. Imaginava.
            Imaginou Mafalda frente ao computador. 
            Novos tempos, onde a máquina vem substituindo pessoas, convivência. Oito horas de trabalho frente à luz fria que lhe rebatia nos olhos. Aceitou o trabalho nas condições impostas: contrato, sem direitos trabalhistas, necessidade de torna-se Mafalda, ela própria a própria empresária e trabalhadora, salário abaixo do de mercado. O celular indicava mensagens ativas, não poderia verificar mensagens pessoais no período de trabalho, apenas aquelas destinadas à solução do problema empresarial. No intervalo para descanso, Mafalda leu a mensagem da mãe.
            Mãe: Não sei se poderei viajar, dependerá do que está se desenvolvendo neste momento, sua irmã não anda nada bem, seu pai fazendo exames. Não comentei com ninguém a intenção de viajar, e dependendo do desfechar, talvez deva cancelar.
            Durante a tarde a mãe distraíra-se com atividades. Até esquecera que enviara a dúvida para a filha, tão preocupada com preparativos que lhe infernizavam a mente: fazer isso, deixar aquilo, prazo de pagamento, não esquecer o IR, o que levar, como levar, como contar, qual momento, como receberão a notícia, enfim, deixar tudo organizado para que gerissem o que era sua responsabilidade.
            Olhou o celular, nova gênese que se imiscuiu entre nós, entre todo mundo, em mim, na mãe, em Mafalda, trazendo consequências tão nefastas, e por outro lado dando oportunidade de comunicar-se com quem está à distância. A mãe colocou a senha pessoal para entrar no mundo virtual. O mundo frio, de técnicas algorítmicas que resultam em informação onde quer que as pessoas estejam. A mãe entrou, e on line, inicialmente fria também, objetiva, ler mensagens, tantos grupos, tantos aplicativos, tantas manobras para alcançar a alma humana e ao mesmo tempo se distanciar dela. Em seguida, a mãe abriu o whatsapp da filha.
            Filha: Mãe, você vai fazer a viagem sim. Para de se preocupar com todo mundo, afinal você tem o direito de pensar em si mesma. As pessoas não são suas dependentes a vida inteira. Não se atreva a cancelar a viagem que planeja a tanto tempo.
            A mãe ficou imaginando a filha escrevendo cada palavra, e demonstrando ansiedade na busca das letras na rapidez do século XXI. Lágrimas e soluços, chegara ao fim da mensagem sensibilizada.
            Percebera, tivera a impressão de que agora ocorria o inverso, ela era a filha. A filha, a mãe.

terça-feira, 30 de abril de 2019

O QUE QUEREM AS MULHERES?


23/04/2019
           Léa tem quatro filhos, meninos entre três e dez anos. O marido, Paulo, chegou à sala, fazendo a última arrumação no terno:
            ― Estou atrasado para o trabalho e hoje teremos reunião com clientes. ― Mal e mal engoliu o café da manhã. Paulo mal percebeu Léa, apesar de ter passado por ela esbaforido. Às crianças sequer dirigiu palavra de bom dia. Léa, hoje, prestou atenção. Ela tentava apaziguar as crianças que não a ouviam, com os cabelos pretos desarrumados, suada, cansada, com roupa caseira.
            Paulo chegou ao escritório e viu Nina, sua chefe, conversando com Lia, uma das funcionárias:
            ― Olho no espelho e me vejo envelhecendo, as roupas clássicas de que gosto, já não me caem bem, me transformam numa velha ultrapassada. E ainda tendo de lidar com o novo momento de minha filha de dezesseis anos pensando em namoro firme, querendo que eu conheça o rapaz. Não estou preparada.
            ― Você está com inveja e ciúme de sua filha? ― perguntou Lia.
Lia tinha seus problemas. Namorava Caio, homem casado e a esposa dele, Jane, acabara por descobrir o caso. Jane, revoltada ao pegá-los em flagrante, informou o fim do casamento, mas que, o filho e a filha adolescentes ficariam com eles, semana sim, semana não, pois agora a amante sentiria na pele o que é ser esposa.
Jane, mulher tradicional, leal e fiel, conhecia o prazer feminino. Sara, sua colega de trabalho que criticara os chifres, não conhecia tal prazer. Jane ao saber da fofoca espalhada no grupo de trabalho, num momento de raiva, contou o segredo de Sara, que saiu envergonhada e chorosa.
            Lia, amante de Caio, tinha uma amiga em comum, Meire, da qual era confidente. Meire era desajeitada com os homens, não sabia chegar, como se portar, o que falar durante um encontro, e quando dizia algo, os homens se retraiam até escapulir. Será que vou ficar sozinha? Lia orientou-a. E Meire encontrou João. Ambos advogados, estavam trabalhando no caso de uma mulher que matou o marido. Meire considerou que a mulher agiu em defesa da honra e protegendo a filha de um estupro. Eis o argumento que sustentaria no tribunal. João envolveu-se com Meire e ambos se descobriram na intimidade e se gostaram. 'O amor despenteia os cabelos e desarruma as gavetas.'
            Enquanto Paulo caminhava até sua sala, Nina, levantou o olhar:
            ― Daqui a pouco os clientes estarão aqui. Tudo preparado, Paulo?
            Uma das clientes era a Susi, mulher bem sucedida. Preocupada com sucesso, poder e voltada apenas para objetivos empresariais. Naquele momento, ditava à secretária, Melina, a correspondência. Melina, tímida e desconcertada, obedecia sob olhares exigentes. Susi fez uma pausa e perguntou à Melina:
            ― Você tem amiga? ― A moça negou com a cabeça.
            ― O médico insinuou que meu desejo por sucesso desenfreado está elevando a testosterona, o hormônio masculino, e que nem pareço mulher. Ele deu a entender que nem devo ter amigas. Isso não é verdade. Claro que não é! Vou provar a ele que não tem a ver. Vamos nos encontrar amanhã para conversar? como uma reunião de amigas, como se você fosse minha amiga? quem sabe tem uma amiga e queira levar? Isso, você leva sua amiga, combinado? na hora e local que eu lhe disse, ― Susi emendou autoritária.
            Melina somente escutou. Ao sair do escritório, Melina presenciou Leona colidindo de testa no poste e caindo para trás. Melina socorreu-a e foram para o hospital.
Leona era motorista de ônibus. Depois de medicada, contou a Melina, meio a trejeitos da face, tiques nervosos que apareciam quando gesticulava o rosto, que o marido era tradicional, e ela julgava o sexo tão normal, tão trivial, e ontem tentou ser diferente.  Preparou a cena para o sexo selvagem que imaginara, mas ao fechar a porta com força atingiu a cara do marido. Com nariz sangrando, ele saiu irritado dizendo que iria embora para a casa da mãe, pois não estava preparado para aquele tipo de vida, ele desejava uma mulher comum. Melina escutou.
Noutro dia ao tomar o ônibus, a motorista era Leona. Leona lembrou-se de Melina assim que abriu a porta do veículo. O que poderia fazer por você? Qualquer coisa, poderia pedir. Melina lembrou-se que deveria levar alguém no encontro com Susi, sua chefe, e como não tinha amiga, perguntou se Leona a ajudaria. Claro, estarei lá. Após o trabalho, Leona passeava de bicicleta, com delicado vestido tomara que caia florido. Ao parar no sinal de trânsito, virou-se para o lado direito, e um ciclista imaginou, por causa dos tiques, que lhe sorrira. Ele gostou de Leona e seguiu-a até um parque. Um encontro inusitado e maluco. Olhares curiosos somente viam ramagens balançando.
            Enquanto isso em casa de Léa, a campainha tocou. Ana, a babá contratada via fone de serviços para ficar com as crianças. Ao ver a babá, Paulo, o marido, engoliu a seco e Léa após observar a moça, retorna o olhar a ele, observando suas reações. A moça, loura, rosto expressivo e sedutora numa minissaia, aparentava ter a mesma idade que ela.
            Ana percebeu o desconforto. Paulo se retirou da sala e a moça disse: ― Vocês vão se divertir. Você é jovem e bonita, quantos anos têm? ― colocando a mão na cintura de Léa de modo provocador, ― bela cintura, deveria estar bem marcada. ― Léa respondeu, vinte e sete, surpreendendo-se. Logo Paulo retornou à sala, perguntando se estava pronta.
            ― Vou colocar um cinto.
            Na manhã do outro dia, Léa pediu ao marido que cuidasse das crianças. Não escutou as desculpas de Paulo e saiu. Encontrou-se com Ana. Logo que a viu, beijou-a num impulso e foram para um quarto de hotel.  Continuaram a se encontrar e Léa sempre pedindo ao marido que ficasse com as crianças. Léa envolveu-se de tal maneira que disse para Ana que largaria o marido. Ana, num tom forte, respondeu que não estava acostumada com rotina, achava o cotidiano chato e chegaria o momento em que estaria saturada da relação e dos filhos barulhentos de Léa. E, ainda, completou, eu sou assim, não me dou com compromissos. Léa ficou desnorteada. A vez em que Paulo seguiu-a, viu as duas conversando numa praça, aos sussurros. De volta à casa, Paulo já estava lá e disse-lhe ter descoberto que Ana a estava ajudando a se encontrar com o amante. Léa deixou o marido falando sozinho e foi para o quarto.
Paulo passou a prestar atenção na mulher ao descobrir que a perdia. Convidou-a então para sair. Contratou outra babá, organizou tudo, Léa ficou admirada dele tomar a iniciativa pela primeira vez.
            Ao chegarem à cerimônia, Paulo subiu ao púlpito e fez a homenagem surpresa pelo aniversário da esposa, declarando seu amor. 'Uma palavra e tudo está salvo. Uma palavra e tudo está perdido.' Paulo caminhou até Léa e beijou-lhe.
A música começou. Léa foi dançar com Paulo.
Ana, estava lá, de flerte com uma jovem, nem via Léa mais.
Nina conversava com Lia sobre o tempo, sobre a filha, sobre o sentimento de competição com sua menina-moça. Decidida que iria trocar as roupas por peças cleans e joviais.
Lia estava distante, exausta de lidar com os filhos de Caio, que agora moravam com ela semana sim, outra não. Nina perguntou, que houve Lia, e sua paixão? Lia respondeu que iria mandar Caio para o inferno junto com os filhos.
Jane e Sara participavam de outro grupo feminino. Até que Sara aproximou-se de Jane e pediu-lhe desculpas. Jane explicou então que o ocorrido fez que largasse a vida monótona de dona de casa e deixasse de ser passiva. Sara, por sua vez, disse que nunca sentira orgasmo e nem sentia necessidade, estava bem daquele jeito.
Meire dançava com João, apaixonados, beijavam-se.
Susi conversava com Melina. Pela primeira vez, Susi se interessara por ela e perguntara-lhe se tinha mãe. Melina contou que a mãe estava presa por ter matado o pai, e amava demais a mãe que a protegera. 
Leona por sua vez, se empolgava na festa, dançando em grupo com outras mulheres e descobrindo que não queria aceitar a proposta de casamento do ciclista, queria ter experiências com outros homens, não somente com um. Enquanto falava, as amigas notaram que os tiques de Leona desapareciam.
            Eis o conto que bolei a partir do filme da diretora francesa, Audrey Dana, O que querem as mulheres.
A película fez refletir. Lembrei as citações de Freud: "A maioria das pessoas não quer realmente a liberdade, pois liberdade envolve responsabilidade, e a maioria das pessoas tem medo de responsabilidade."; " Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais; somos também, o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos... sem querer."; "O homem é dono do que cala e escravo do que fala."; "O caráter de um homem é formado pelas pessoas com quem escolheu conviver."; " Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: o que uma mulher quer?" 

'De longe tudo é igual, já dizia alguém.' Quando a câmera se aproxima...


'  '  citações do escritor Ronald Claver.