segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

JOGOS DE INFÂNCIA


16/02/2020
Na vila dos anos setenta, à tarde, a garotada se reúne na rua sem asfalto. Dividem-se em grupos, e meninas e meninos, juntos, começam o jogo que virou rotina. Queimada. Na queimada, o campo é dividido ao meio, e do meio se dá quinze passos largos nas duas direções e se faz outra linha divisória, o inferno, onde ficará quem é queimado pela bola. A capitã do time organiza o jogo, metade de cada grupo num lado do campo. A menina de cabelo curto, magrela e ágil, em shortinho e camiseta, dá início ao jogo. Bate a bola de couro no chão, buscando a segurança da jogada e bem na linha divisória, prestes a lançar a bola com toda a força nos jogadores do lado adversário, afina a pontaria, finge que joga, mas não joga, em direção ao lado esquerdo. Ao contrário, escolhe e pega desprevenido o jogador à direita. Não importa se à direita ou à esquerda, com a capitã do time, a bola rodopia e rebate como um estrondo e o adversário não consegue agarrar. Queimado. Vai para o inferno. Assim o jogo continua até que apenas a equipe campeã permaneça com um/uma jogador/a em campo.
O menino e outros garotos apreciam as jogadas, esperando encerrar a partida para que o seu time enfrente o da capitã. Ele a admira: ‘Que menininha, e que agilidade. Na pelada de futebol também não dá moleza no drible, sai com a bola e quando se vê, é GOOOL. Ninguém segura a guerreira. E sabe jogar finca, bente-altas, bolinha de gude, malha. Joga com menino, joga com menina, ela tem a insígnia da desafiadora, e com o jogo limpo, o grupo sai vencedor’.
O menino gesticula, aplaude. Na rua é um menino livre. Quando abre o portão, o pai distante, ausente e rígido, a relação autoritária. Menino triste. À capitã, sua amiga e confidente, disse “sempre quis ir ao futebol com meu pai, desde pequerrucho era meu sonho que ele estivesse entre os torcedores, vibrando pelo gol. Eu olhava para a torcida procurando o rosto de meu pai, e não via.”
       O jogo acabou. Saíram antes que ouvissem a mãe chamar. Mas o menino aguardou a capitã sentado na calçada. E a garota empolgada com o resultado conversava alegre e mudando o assunto:
“Hoje estava lembrando daquele menino que produzia bodoque de forquilha perfeita, e a melhor era a de goiabeira, lembra?”
“A gente brincando de pular na barroca, naquele buraco cheio de terra, apostando o pulo mais alto...
 “E de repente sua testa em puro sangue escorrendo e você nem sentia.”
“Você gritando e pulando, avisando que o menino atrevido fugia.”
“Procuramos o danado por todo lado.”
 “Minha mãe quando me viu desmaiou, levei doze pontos na testa.” Ele falou com o riso encabulado.
“E pensar que daqui a pouco é sua formatura, dá para acreditar que já seremos adultos? Ai, sinto uma dorzinha no peito, não posso parar essa bola e nem agarrar.”
“Sabe, apesar da raiva que sinto de meu pai, penso que fez o que deu conta, o que foi possível. Na criação dele, os pais eram tão bravos e autoritários, compreendo. Afinal não sou mais criança. Vou fazer diferente.”
“Como será o novo tempo?”
 “De uma coisa tenho certeza, nos lembraremos da nossa infância como a melhor fase da vida.” O menino disse, emocionado.
Despediram-se.

Ano 2020. Ela enviou a foto antiga por whatsapp, o rapaz ao lado do pai no dia da formatura do secundário. Ambos sérios e o jovem de canudo na mão.
“Estranho o pai não colocou a mão no ombro do filho.”
“O filho também não colocou a mão no ombro do pai.” A outra respondeu.
         "Como será que ele é agora, como pai?
“Desde que se casou não tive notícia.”

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

estou indo!


09/02/2020
Começar de novo.
Aliviada e com autoestima revigorada, assim queria se sentir. Mas o momento não trazia apenas a conquista da liberdade, trazia também o lado triste de outros envolvidos que não mereciam estar no meio do redemoinho. Bem que a mãe lhe confidenciara baixinho:
 “Acha que tudo foi às mil maravilhas com seu pai? Ele era homem bonito e vistoso, de vida livre, da viola, da toada de bois, das cavalgadas, do trabalho sem horas rígidas, e onde existia isso nessa roça de meu Deus? Ao pobre é exigido o esforço além da medida humana e ele não tinha a tal energia, nem jeito com obrigações. Com salário de professora cuidei de vocês, oito filhos queridos. Ele achava que não tinha obrigação de contribuir financeiramente, o pesado bancasse eu.”
Naquelas eras, a estrada em pura terra batida onde o punhado de arenito evitava a poeirenta nuvem. Contava com nove anos e preferia ficar no cantinho, quieta e observadora, numa timidez única, não compartilhada com as irmãs. A mãe sempre ocupada com as diversas obrigações, tendo que dar direcionamento aos filhos mais velhos que cedo levavam dinheiro para casa.
A menina sentada na pedra, no cantinho da estrada onde ninguém via, conversava com amigos, e eram muitos. Esse egoísmo de não partilhar amizade, onde os irmãos brincavam longe e ela escondida entre folhagens. Com eles conversava e se abria. Quando um adulto ou irmão se aproximava, via a menina de braços abraçados às miúdas pernas. Ela sozinha, respondia com monossílabos ou não. O mundo em que vivia, rico de amigos brincalhões e cismados, se recolhiam ao mutismo. Assim passou a infância, protegida da mãe brava que punia com violência os filhos, tentando ao seu jeito dar direcionamento àquelas pequenas vidas deixadas em suas mãos, unicamente em suas mãos.
Passou a infância distante dos problemas familiares e protegida dos sopapos entre mãe e irmãos. Os mais velhos, os mais penalizados. Pôs na cabecinha, tivesse idade partiria dali, cuidar de si. A adolescência sem diferentes sensações e terminada a escola secundária foi morar com uma das irmãs casada de pouco.
Foi um tempo tumultuoso. O cunhado encontrava maneiras de assediar e a energia gasta em estratégias para proteger a irmã da verdadeira figura do marido. Quando veio a independência financeira razoável, buscou o próprio canto para manter a dignidade. Sempre que retornava à casa da irmã procurava não ficar num ambiente sozinha com o cunhado. Extremamente desgastante estar o tempo todo atenta a tudo e escapulir das ciladas.
Estudiosa e acostumada à solidão, fez o modesto patrimônio: o apartamento localizado em condomínio de quatro prédios popular. Arredia ao contato masculino, fugia de relacionamento, até que apareceu o rapaz mais jovem. Na fase madona, passada idade de casar. Aconteceu tão rápido e a união durara décadas.
A conformidade do jeito infantil estabilizou na adultez. Sóbria, tímida e o mundo interior repleto. Tranquila entre mundos, não chegava ameaçar a convivência social pela discrição constante. E tal qual a mãe, a administração financeira da casa era obrigação dela. Ela respeitou sem queixas, mas projetaram-se simbólicas no relacionamento que aos poucos adoecia. Eram tantos silêncios. O marido, no auge do másculo, dava dimensão importante ao sexo. Sexo, para quê! Separaram-se. Como buscar maneira de conduzir as situações com jeito, sem sofrimento do ex-marido e filhos? Nem sempre o começar é novo. Vem acompanhado de perdas e ganhos numa fluidez em movimento que apenas o tempo, fiel professor, dirá.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

STAND UP E AMIZADE (CENA 11)


04/02/2020
― Osvaldo, finalmente te encontro! ― O jovem colocou a bandeja à mesa e ajeitou-se para sentar.
            O homem levantou o olhar, terminou a mastigação e disse:
― Rapaz, quanto tempo! ― Limpando a boca com o guardanapo. ― A última vez foi na festinha de fim de ano. Conta as novidades.
― O ano é novo, mas as notícias continuam velhas: desemprego nas alturas, povo passando necessidade e o número de mendigos cresce. O governo orquestrando todas as tramoias iguais às das velhas políticas... tudo igual na nossa terra Brasillis. Só se vê o continuum de fake news do presidente, mas não se vê nem o presidente e nem o ministro da economia falar o que vai fazer para acabar com a fome e a desigualdade social.
― Você precisa trabalhar casos de Stand Up para criticar isso, rapaz!
― Vou bolar. Você verá.
― Como surgiu essa coisa de stand up, de comédia, na sua vida? É tão moço.
― Quando eu era pequeno, aprontava muito. Fazia bagunça em casa e na rua, gracinha com todo mundo e por aí foi. Isso tudo foi ontem, porque com 1,68 de altura, sou pequeno até hoje: O “Famoso Tarzan de Bonsai”.
Osvaldo, por pouco, engasga. Tomou gole d’água, limpou os lábios e abriu o riso.
― A maturidade chegou afinal. Hoje em dia nem dou mais risada com pessoas tropeçando na rua. Até porque se eu der risada, vão saber que sou eu.
― Você é engraçado mesmo, baixinho! ― rindo.
― Lembro uma vez que um funcionário da escola foi na sala dar um recado, porém ele tinha sofrido uma paralisia facial na metade de sua boca e falava apenas com a outra metade. Depois dele ter dado o recado, uma colega de classe disse que não entendeu nada. Então falei pra ela: “para bom entendedor meia palavra basta!”. Essa nem a professora segurou a risada.
― Rapaz, você é bom no negócio! ― Osvaldo às boas gargalhadas. ― Quem sabe bola casos também para a próxima festinha? O pessoal vai gostar e o riso está fazendo falta nesse Brasilzinho.
― Vamos voltar a comer que a minha hora de almoço está acabando. Não entendo por que você me chama de “rapaz” já que sabe meu nome.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

POVOADO EM ALEGRIA (CENA 10)


27/12/2019
            Enquanto isso no povoado a festa da comunidade ainda em organização. Juvenal cedeu as mesas e cadeiras da associação e no espaço local, os ritmos já bordavam todos os gêneros. A música acalentava os que se dispunham a trabalhar. A preparação era a parte gostosa, as pessoas trançando de um lado para outro, entre os cochichos, mulheres e homens faziam perfumar o ambiente da cozinha para que tudo estivesse pronto às dezenove em ponto. A grelha, para o churrasco dos peixes, legumes do próprio quintal, ..., já começava em brasa.
            A criançada e os mais jovens se permitiam brincar na praia, descompromissados nesse viver presente em que obrigações pertencem aos adultos. No povoado, lugar de criança era na escola e quando fora dela, brincava na liberdade do local simples, com brinquedos feitos por eles, de madeira, de barro, bambu, areia ... Chegado o tempo de férias, a farra se tornava exultante e algumas mães ficaram responsáveis do cuidado das crianças das que preparavam a festa.
            ― Aquela menininha sentada na areia está tão quietinha, como se estivesse em outro mundo, ― disse uma das mulheres apontando.
            ― Coitadinha, teve uma experiência de dor, e tão criança ainda. Foi abusada por um primo dez anos mais velho. Ele aproveitou que ela estava sozinha na cozinha e passou a mão em suas partes íntimas. Por sorte ouviu um barulho e fugiu. Ela tinha apenas oito aninhos, hoje tem dez. ― Falou a outra.
              ― O próprio parente, que maldade.
        Nisso, algumas crianças chegaram com brincadeiras e carinho, conseguindo que a menina saísse dos pesadelos, segurando-a pelas mãos, de um lado uma menina, de outro um menininho com quem sempre brincava e juntos o sorriso se abriu. Correram os três para o mar, furando as ondas de verão. As mulheres de longe, o coração aliviado pela graça que pertencia à infância.
          ― Quem dera adultos tivessem o exemplo dos puros. Quando isso aconteceu o que fizeram?
             ― Abafaram ao invés de chamar o garoto ao comprometimento do erro, assumir a consequência do ato. Não se pode tolerar algo assim, mas na maioria das vezes é dentro de casa que acontecem coisas tristes. Cabe aos parentes conduzir a situação. Os dois são vítimas desse sistema distorcido em que vivemos. O ideal seria ele reconhecer o erro e pedir perdão. O rapaz tem os dois lados, o mau e o bom, como todos nós. E se apenas a punição existir, vai ferir outra mais a frente, vai querer vingança, vai agir pior no futuro. A sociedade e os pais vem falhando demais na educação de jovens e crianças. Os pais não conversam, não colocam limites. A sociedade não exige boa educação. Aprendi muito no conselho tutelar. A gente não enxerga a complexidade, preferindo a ocultação. Segredo não traz mudança de atitude, mas sim o enfrentamento. Tenho conversado com a mãe da menina, orientando. Não dá para forçar algo difícil de ser elaborado pela família. Pelo menos ela avisou ao rapaz que ele não é mais bem-vindo, tornou-se parente longínquo e deixou claro que qualquer tentativa dele molestar outras crianças o denunciaria.
            ― Olha lá, se juntaram a outras crianças, bom mesmo é essa farra.
            ― Eles dão a mão facilmente, o rancor não está acumulado. Pois comigo ele anda quase que de mão dada. É triste dizer isso, mas é a verdade. Tanta decepção... deixa para lá. Está quase na hora de ir. Colocar essa turma no banho vai ser fogo na roupa.
            ― Vou chamar todo mundo.
            As mesas organizadas. Bandeirolas alegravam o espaço em cores. O quitute pronto a ser servido. A churrasqueira de um vermelho intenso, começando a receber o pescado, as cebolas, batatas, queijo, pão com alho. Quem preferia bebida alcoólica trouxe a sua. As famílias ali, no primeiro momento, junto aos filhos e depois se dispersando para outras mesas, no papo de todas as idades e o arrasta-pé animado.
            Os pescadores dançavam, os que apreciavam a comida se permitiam à partilha, o dom da multiplicação. O encontro simples, aconchegante, entre risos, desejos e esperança em 2020. Nada de falação de político, não aceitaram a oferta de participação e cotização de interessados apenas em votos. Todos à festa, o momento era de descontração, pois o ano necessitou do coletivo atento na luta diária por dignidade.
          Bia auxiliava na partilha do alimento, enquanto Josué reunido aos amigos do trabalho escutava as aventuras contadas em exagero, lembrando ele o episódio que vivera recentemente, a tormenta ostentando ondas selvagens no breu infinito e invencível. 
          Bia levantou o olhar e reconheceu o rapaz que segurava o capacete, o moço que a assustou durante um passeio. Ele descontraído ao lado de uma moça. Seria a mesma por quem demonstrou raiva? Viu Eli com o marido e os filhos, Toninho num canto com Lurdinha e a mãe, as mulheres que a socorreram no fatídico dia. Suspirou aliviada. Estava ali. Estava bem. Tinha o que decidir, mas aquele momento, aquele momento, o brinde à vida era o importante. De vez em quando copos se elevavam brindando à união.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

CONFRATERNIZAÇÃO E AMIZADE (CENA 9)

26/12/2019
               ― Ei Ritinha, podemos contar com você no amigo oculto de natal e na confraternização com a turma da esquina?
             ― Não vou perder por nada desse mundo, Valdo.
          Então aproveita e escolhe seu amigo oculto. Lembrancinha simples porque as coisas andam apertadas para todos nós. Valor simbólico, o importante é a nossa reunião. ― Balançou o pacote com os nomes e Ritinha fechou os olhos enquanto escolhia.

            ― Vai chamar a Luiza e a Dodô?

          ― Daqui vou na copiadora e na loja ver com elas. Também convidamos a mãe e o Bilico e o pessoal da farmácia. O encontro será animado, ao ar livre, no quarteirão fechado onde a gente joga xadrez. Vamos enfeitar tudo, precisamos de ajudante, hein!

            ― Posso contribuir depois do trabalho.

            Osvaldo encabeçou a festa, definindo os comes e bebes que cada um ficara incumbido de levar. Sem bebida alcoólica. No dia marcado, depois do expediente normal, a farra foi geral com as marchinhas típicas salvas no pendrive e som emprestado.

            A velhinha olhando de cima aquela pequena multidão entre sorrisos, empolgação, pequenos grupos e tanta conversa, ouvia apenas uma zoeira. Ela sempre acompanhava o encontro da turma de xadrez lá de cima, presa à solidão dos que moram e vivem sem ninguém. Vaidosa, antes de chegar à janela, se aprontou, passou maquiagem na face enrugada. Gostava do batom bem vermelho, o perfume forte e a roupinha clássica dos bons anos.

            Osvaldo se desdobrava para tudo sair nos conformes, nem parecia ofegante e até esquecia de acender cigarro. Passeava entre os grupinhos, empolgado com o encontro “muito bom comer o doce junto com os amigos enquanto continuamos a lutar o amargo dos tempos” pensou. Passou rente a Bilico e mexeu em seus cabelos negros, enquanto a mãe oferecia o de comer e beber, na fartura daquele dia. A turma esquecia por alguns minutos os diversos problemas e irmanados no afeto e boa vontade dos que são próximos. Todos com algum problema por solucionar, diversas perguntas sem respostas, crises batendo à porta, mas ali juntos, fortalecidos no elo da convivência. De repente, ao iniciar conversa com o grupinho da farmácia, Osvaldo enxergou a senhorinha à janela. A mulher assustou-se e puxou a cortina. Osvaldo imaginou que ele pelo menos podia contar com a família emprestada, a turma da esquina, mas aquela mulher nunca viu em companhia de alguém. Ela retornou à janela e o acenar do homem chamando-a para se juntar a eles. Agradeceu com a vozinha fraca o convite e continuou a contemplar a algazarra de adultos, parecendo os tempos de criança.

            ― Está na hora do sorteio do amigo oculto, Valdo. Senão fica tarde e perco meu ônibus, e outro somente duas horas depois, vamos logo ― disse um dos amigos aposentados. Osvaldo volveu o olhar e com a mão no ombro amigo, deu uma olhadela rápida para os próprios pés e não os enxergou.

          ― Quer ser o primeiro? ― Osvaldo falou e o amigo deu de ombros concordando. Posicionados no círculo entre três mesinhas de jogos, iniciou a tradicional adivinhação de quem era o amigo após dicas “O meu amigo oculto é assim, assado, desse tipo, e tal” e decorreu até o último receber a lembrancinha em meio às gostosas gargalhadas de dizeres irônicos.

            No grupo de algumas mulheres os assuntos eram diversos, e o que chamou atenção foi o comentário de Dodô:

            ― O senhor ao lado direito de Osvaldo está me enchendo a paciência. Quer porque quer sair comigo e vem todo serelepe para meu lado, pegando em meu braço, despistando e colocando a mão na minha cintura. Não sei mais o que dizer para ele sem ofender. Os homens parecem não ter desconfiômetro, vem para cima da gente com tudo, sem respeitar os limites da educação. Não gosto desses tipos que não escutam, não aceitam ser desprezados. Além disso é velho demais.

            Elas observavam um dos grupos de aposentados conversar alterado sobre time que foi para a primeira divisão e qual caiu para segundona. De brincadeirinhas um com o outro, como se moleques fossem.

            ― Seu requebrado seduz, Dodô. Quem me dera essa ginga baiana na minha praia. Claro, com homem que eu escolho. ― Falou Luiza. ― Também não suporto assédio de forma alguma, até o gerente alertei para o cuidado no trato com funcionários e ele está tomando jeito. Que isso, hein gente, que trabalhão ser mulher, bicho homem parece que só vê bunda.

            As mulheres em risadas quando Osvaldo chegou para saber se a festa estava legal. Ao que responderam em coro “muito boa e divertida” e trocaram olhares e risinhos que ele não compreendeu.

            ― Meninas, o que não querem me contar?

           ― Valdo, tudo tranquilo. É papo nosso, preocupa não, viu! ― Soltou Ritinha, toda sorrisos. ― Está querendo auxílio?

            ― Nada, somente andando e conversando com todo mundo. Olha ali aquele rapaz que às vezes almoço com ele, trabalha perto daqui, disse que não sabia se teria tempo, pois a festinha na repartição foi hoje também. Vou lá bater um papo com ele, depois volto, divirtam-se!

            ― Rapaz, que bom apareceu ao nosso encontro.

           ― A festa da repartição está no finalzinho, e depois que o povo bebe umas e outras, as coisas passam do limite e então lembrei do seu encontro, Osvaldo. Não vi você no almoço por esses dias, mudou de restaurante? ― O rapaz em questão, todo tradicional, jeito tímido, mas ao mesmo tempo habilidoso nas piadas, segundo ele próprio, ainda seria comediante de stand up.

            Geração diferente e se davam bem. O rapaz apreciava papo interessante e entre os jovens de sua idade o papo versava em tecnologia e nada sobre existência, sobre objetivo de vida, sobre o outro e a convivência social. Percebia que procurava amizade entre adultos.

          ― Ano que vem participa do nosso amigo oculto, tenho certeza que vai gostar e te apresentarei os amigos da esquina, tanto os aposentados quanto o pessoal das lojas próximas, a turma é agradável, simples e unida.

          ― Quando for almoçar você me conta como fazem. Passei para felicitar bom natal e ano novo, que nossos encontros de almoço continuem e a gente troque mais ideias, viu amigo! ― O jovem deu forte abraço em Osvaldo, que ficou meio sem jeito. Aquele jovem não tinha vergonha de abraçar outro homem como ele tinha.

            ― Andei ocupado e nem tive pausa para almoço. Continuo almoçando lá e a gente vai se ver sim.

            O jovem se distanciou e fez que lembrasse de Taquinho com a mesma idade, o irmão carinhoso e expansivo. A nesga de tristeza envolveu seu espírito, mas um tapa nas costas o tirou de seus pensamentos e foi ver por que solicitavam sua presença.

            ― Valdo vai dizer algumas palavras antes do fim da festa, gente. Atenção! ― Falou Ritinha, gesticulando os braços.

        ― Mas, Ritinha, não preparei nada. Você é a responsável pelo encerramento, querendo fugir da raia? ― Osvaldo sorrindo. ― Bem vamos ver o que sai, não é!

         O homem andou no círculo de amigos com o jeito pesadão, mas pisando macio, enquanto calculava palavras, subiu no banco de cimento com ajuda de alguns, posicionado com visão de todos. Agradeceu a presença indispensável de cada um, de cada uma, sem o que a festa não teria brilho. Ponderou novo silêncio e

            ― Vocês trazem de mim o melhor, e nessa convivência amiga posso me apoiar. Tal como a verdadeira democracia que precisa se apoiar nos desejos e fantasias de seu povo. Enquanto estamos juntos, vocês, eu, todos deixamos de lado o descontentamento por aqueles que não respeitam compromissos firmados e adotam decisões voltadas ao interesse de poucos. ― Precisou respirar, continuou:

― Ousamos construir esse encontro utilizando a rede de tecnologia para organizar o momento festivo, e vimos quanto isso pode gerar frutos às outras áreas. Torço que nos tornemos mais ativistas durante todo o ano e cuidemos uns dos outros. Em nossas conversas constantes falamos sobre autonomia. Opinamos e verificamos como a Internet foi e está sendo usada, de modo inverso aos nossos desejos e necessidades. Parece que faço discurso político? Mas, vejam, vocês se arrancaram de casa, vieram até aqui, estão presentes, envolvidos e atentos. Esse entrosamento entre nós tem a capacidade de dar visibilidade aos nossos problemas, compartilhar o que nos aflige, nos dá potência e força para os reveses à frente ― nova respirada.

― Estamos mais fortes quando temos tais gestos. Somos sujeitos que definem uma ação em torno do projeto que nos interessa. E depois das festas de final e início de ano, quais serão os projetos? Vamos abrir espaço para possibilidades. Este é o recado, vamos fortalecer a conexão entre nossa comunidade para outras ações com a participação de todos. Nessa coreografia afinada podemos dar pontapés certeiros à construção do que queremos, do que é possível e de direito de todos. O que acham, vamos juntos?

            O grupinho ao lado de Osvaldo gritou:

           ― Osvaldo, Osvaldo! Valdo é o nosso candidato! ― A pequena multidão em palmas, inclusive a velhinha.

           ― Que isso, pessoal, não tenho ambição, mas unidos somamos, isso tenho certeza! ― Desceu do banco escorando nos ombros amigos, pediu um copo com água, pois as palavras exerceram forte emoção.


           Quando o encontro se encerrou, abraços, desejos, sorrisos e bênçãos de amizade leal transmitiam energia vindoura.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Quanto mais teremos que lutar? (CENA 8)


22/12/2019
            ― Outro dia encontrei Juvenal e sabe o que ele me disse? ― Bia falou para Rosária, mulher de Zé Pescador, ― que Josué sustenta a casa sozinho. Ele disse: coitado de Josué, sustenta a casa sozinho. Fiquei com tanta raiva, mas evitei comentar, deixei pra lá.
            ― Homem não dá valor mulher que fica em casa.
            ― Trabalho tanto, às vezes o dia inteiro sem poder sentar. Dona de casa não recebe salário, mas Josué e Toninho vem pra casa e encontram as coisas no lugar. Ainda faxino e lavo roupa dos granfinos que moram atrás do matagal, corro a semana toda sem descanso. Mulher contribui, é explorada, ninguém reconhece o trabalho doméstico.
             Estranho sendo Juvenal quem é.
            ― Ruza, homem é tudo machista. Eles acham que a gente precisa deles pra viver, acham que somos dependentes. Cruz credo, viu, nem parece que se está em 2019, até hoje pensam que mandam e o que a gente faz não têm significado. Sai para lá lobisomem, comigo não! Passei maus bocados com Josué no tempo em que era bocó demais. Pelo menos não casei com Juvenal, Clara deve passar um cortado, mesmo sendo presidente de associação tem essas ideias atrasadas. Quanto mais teremos de lutar por nossos direitos? Todo mundo é igual, homem e mulher. O mundo é melhor porque existe as mulheres, senão ia ser uma tristeza de dar dó. Aguentar essa vida, somente colo de mulher para descanso, nessas horas lembram que a gente é importante.
            ― Zé é tranquilo. Ralo muito, mas ele reconhece e sempre reserva uns trocados pra mim, além de continuar carinhoso e a gente sempre passear, faz questão de continuar namorando. Gosto desse lado dele, me surpreende quando menos espero. Lembra datas festivas. Tem hora que fico me perguntando até quando, por que a gente vê cada homem por aí, que Deus do céu.
            ― Igual a Bolota, coitada, passa um sufoco quando Tobias chega em casa bêbado de doer. Aquela tem sofrimento pra contar, vive roxeada e mancando, quando não tem que ir na UPA. Os homens não estão aguentando a enrolação dele para trabalhar, falta na pescaria e quando vai gasta o dinheiro em cachaça. Os filhos nas ruas, Bolota não tem o respeito dos garotos, mal acostumados aos mandos do pai. A gente tenta falar pra ela buscar ajuda, mas tem medo, qualquer hora faz besteira.
            ― Temos que fazer igual as chilenas. Gritar bem alto para os homens escutar. Tive vontade de ir na marcha, mas estava atarefada. Fico em casa cantando a música que viralizou na Internet:

E a culpa não era minha, nem onde estava, nem como vestia...
O patriarcado é um juiz, que nos julga por nascer
E o nosso castigo, é a violência que tu vês...
Feminicídio, impunidade para assassinos,
É agressão, o estupro e a ocultação...
Estuprador és tu...
O estado opressor é um macho violador...
Estuprador és tu...

             ― Lurdinha foi e Toninho incentivou. Tem mulher que não sabe que a liberdade foi conquistada a duras penas, não dá pra ficar parada não. A sociedade e os homens têm de respeitar, passou da hora de ter liberdade por nossos corpos, não admitir violência. Queremos o justo.
            ― Bia, está quase na hora de fazer a janta. Depois me conta por que você anda tão sumida, quase não te vejo fora de casa depois daquilo.
            ― Antes de ir quer limonada gelada? Entra e conto as confusões que têm acontecido.
            ― Com esse calor é boa pedida. Mas a hora voou sem eu perceber e as meninas chegam famintas do trabalho. Até mais! “E a culpa não era minha...” ― Rosária saiu cantarolando e dançando pela ruela afora.

domingo, 22 de dezembro de 2019

IDADE DE SENHORA VII


14/12/2019
         Levei os resultados.
― Não adianta se preocupar com a conclusão. Deve-se analisar item a item, isso é o importante. ― Disse o médico enquanto folheava.
― Segundo o laudo verifiquei que não houve mudança, mas também não piorou.
― Na verdade houve melhora de um por cento, olha aqui. Pode parecer pouco, mas no global faz diferença. E não ter piorado mostra que é necessário insistir no tratamento. O que a senhora deve considerar não é a preocupação, mas a dedicação.
A última frase gravitava em meus pensamentos. “O que vale não é a preocupação, mas a dedicação”.
Ele continuou:
― Tem de lembrar sempre os dez mandamentos para uma vida com saúde. Já falei sobre eles?
Assenti com a cabeça e completei que me lembrava, mas ele fez questão de repetir cadencialmente para mim.
― Exercício físico, ..., ter uma atividade, pois não dá para ficar à toa na vida, lazer é fundamental também, nada de stress exagerado e finalmente, proibitivo... tombos. 
― Eis aqui a receita para os próximos seis meses. Levantou e abriu a porta do consultório. ― Na despedida disse:
― Estou aguardando o convite para os cem, não vale os noventa e nove.
― Você falou noventa da última vez.
― Não importa. Só vale os cem!
Fiquei pensando no médico, nas boas palavras que fazia questão de expressar. Será que se poderia considerar escrita e leitura como atividades, apesar de exigir longo tempo sentada? Lembrei dele articulando “a cada hora sentada, levantar e relaxar por dez minutos, obrigatório. Agora até existe um app que trava o computador, exigindo que a pessoa descanse”.
Saí do consultório com a certeza de que deveria fazer mais. Eis o projeto de vida de 2020.