quarta-feira, 31 de março de 2021

aos que têm sede de viver (CENA 46)

 


― Sinceramente, Bia, que catástrofe esse vinte de fevereiro com quase 250 mil mortes. O que será que vem? Dormindo a gente penetra numa fundura de dor. Essa noite acordei em sobressalto, imagina que...

 

Poeira ao vento. Quando se quer qualquer coisa tem de procurar? Pois que ela procurava na aroeira, a do canto do quintal. Ouvira falar das proezas da quitanda, além de pimenta rosa o tronco é tiro e queda pras doenças do estômago, muitas e até do vulgo estômago virado, de até cachorro tinha. Nisso foi inventar de catar casca do tronco pra fazer chá e destemida não ouviu o que a avó tinha contado muito tempo de trás no quintal, no tempo de sua meninice, de em certas noites, quem visse, rezava muita novena e novena sem fio de parada pra modo de levar pra longe as mazelas. Porque a gente que olhasse ficava abobada e não emitia sombra de palavra, nem obrigada. Isso é coisa de vó, solene no contar da prosa. 

Ela não se abestalhava com poeira pouca. A vida aí inteira para se caminhar pra frente. Reza boa arreda pé do medo.  Era de noite e não sabia se de certa noite. Foi toda sorriso, desceu a escada pé ante pé, sem se esgueirar, cheia de hábil amor por si. Nada há de me avexar que sô muito é mulher macho, mesmo sendo fêmea, cabra arretada e com umas rezas, zelo de fé e crédito na glória divina, eu sem espanto me garanto. E como silêncio ia quieto, imaginava que não se sabe o que a vida está dizendo, mas quando se levanta e se põe a caminhar, sabe que não está só. 

Ela pegou o vazio e preencheu com música. Laranja madura na beira da estrada. Tá bichada. A própria voz escutada. Mas diziam que aquilo assombrava até cabra macho e que deixava à mostra o coração, o peito abrisse e lhe visse as entranhas em fel que tanto amarga. Certo que haveria de achar e reconhecer a arvinha mesmo naquele breu. Às vezes a escuridão serve pra alumiar e curar nossas cegueiras e pode colocar os demônios para fora enquanto é tempo. 

Quando de cara no tronco que procurava, ela viu surgir de trás um meio rosto. O meio rosto trazia meia face de palhaço de alegria de circo, enganava mas num era. Era cara de patetice feito laranja bichada e sorrira abobalhado oferecendo como dádiva a palurdice pra patriota ouvir quando não tem miolo nem senso, nem se liga duas ideias, na verdade bufonea e atrofia o intelecto. Era esse o tipo e quando olhasse se transformasse em um. Puro espelho. Ela, por demais curiosa, fechava a mente e a meia fronte desapareceu ao seu cantar o credo, reza altaneira. 

Visualizou do outro lado do tronco e quando meia face de demônio se atreveu mostrar satânicas unhas e dentes e abriu a bocarra tentando engoli-la numa gosma verde oliva, ela disse, sai monstro, eu digo não. Eu me vou que esperar não é saber. Escutou a voz vinda dos tempos. É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar. Rezou padre nosso, ave Maria e pernas para que te quero, não aceitava ser mentecapta e na carreira a lua alumiou e adentrou em casa sem voz na goela, sã e salva.

 

― Ruza, você padeceu durante o sono. A realidade açoita a gente e de noite arde. Sonhei uma noite dessas um troço sem pé nem cabeça que vou te contar. Não é só você que anda fustigada durante a noite...

 

O tormento atravessava. As pessoas atingidas estavam como se não se conhecessem mais. Os ‘normais’ que na verdade sempre foram estranhos ficaram ainda mais estranhos. Alguns poucos desses estranhos mais inquietos e indecisos, alguns outros se moldaram à aparência de soldados desalentados com a cabeça ensanguentada em vermelho vinho. Dispostos lutar por nada ou coisa nenhuma que valesse e destruir a quem tropeçasse ou discordasse.

Dentro de casa as gentes se achavam seguras. Não antenaram para ameaça. Bem ao meio do terreiro, sentada na praça, em cadeira alta, sua alteza ‘M’ exigia milhões, milhos gigantes com bastante grão que reluzia ouro, prata, para colocar nos balcões junto com as laranjas lima. Sua alteza enchia a bolsa e os bolsos. Ao seu comando o bobo da corte pulava, corria, fazia e acontecia. O olhar global de soslaio se remexia com o cristalino do olho opaco e vidrado também queria milhão.

            Do outro lado do terreiro mortos andavam mais vivos do que os mortos-vivos estranhos sem reação nenhuma. A área plana empapuçada de caminhantes em andrajos no fantasmagórico trajeto. Cheiro e morticínio. Havia muitos mortos-vivos sem rosto e de barriga vazia, mas esses ninguém via.

   A chegada de bacurau fez a tormenta arrefecer e a ave em seu voo precipitou o cair de chuva estrelando flores-de-esperança, flores-de-beleza aqui acolá e mais tantas flores em pétalas azuis, brancas, rosas, multicores espalharam-se no chão antes árido. O pássaro vivera o pânico e acenava voo com intuito de espalhar o mínimo, nada além do mínimo néctar e faria lima espremer para distribuição aos que sede têm de viver.

 

― Bia, seu sonho é mais louco que o meu. Quando é que vem sonho com paisagem tranquila aonde se possa respirar à sombra de árvore, ouvir o passarinhar, sentir o crec crec de folhas e descansar dessa longa jornada?

― Depois que Josué me contou o pesadelo dele com uma ave, acho que fiquei impressionada. Existe pedras no caminho, Ruza, muitas.

As mulheres se despediram. Bia abriu o portão e ainda acenou à Rosária que falou:

― Vê se lembra sonho ameno. ― E deu um riso enquanto caminhava. ― A gente se vê no próximo sábado então.

domingo, 21 de março de 2021

o pobre reflete dores e aflições de Maria e José (CENA 45)

 


        Dona Cotinha saiu da janela e se encaminhou até à porta. Recebeu as mulheres à distância protetiva, pois sem máscara.

       Dona Cotinha vivia sozinha antes da pandemia dar seu arregaçado riso destruidor e a filha viera viver com ela após perder emprego e não ter como pagar aluguel. Nem sei dizer pra vocês, meninas como ando me sentindo. Às vezes me pego pensando qual é o objetivo viver enclausurada, sem convivência com vizinhos e amigos, sem nossas folias da comunidade, ah! como faz falta. Tem hora que sinto uma lentidão no passear do relógio, o corpo nem querendo obedecer e fazer o que tem de ser feito em casa, parece que ando anestesiada e caminhando que nem autômato para lá e cá. Que vida essa que ‘tamo’ vivendo, hein, é muito louco tudo que a gente presencia. 

       Nosso povo com tanta dificuldade de viver e só se escuta nas rádios e tevês que os ricos tão cada dia ainda mais ricos, pra vocês verem, meninas. Por que eles não têm solidariedade por nós?

      Eu fico me perguntando. Pra que serve tanto dinheiro se cada vez nem pobre, nem rico tem acesso a lugar nenhum por causa das quarentenas que vão e vem, pra quê? Para onde a gente tá caminhando com tanto retrocesso em nossas vidas?

     As forças de polícia também vêm pra periferia e matam os nossos tanto quanto o covid e desrespeitam ordens sem ninguém além de nós reclamar. Tá difícil.

       Cheguei na velhice achando que poderia descansar da lida exaustiva de criar os filhos, agora vejo meus filhos dependendo de ajuda miserável desse programa de governo por estarem desempregados. Minha filha mais nova, na flor da idade não encontra trabalho de jeito nenhum, e olha que ela teve estudos graças aos programas do governo de antes de 2016. Agora esses terríveis que vieram depois só querem destruir tudo o que nos deu chance de diminuir um pouco a dor da pobreza.

― Concordo com’a senhora, as coisas voltaram a ser muito difíceis pra nós da periferia. Talvez quando essa dificuldade chegar na classe média, ela se levante e vá pra rua fazer o que a gente sempre fez e que ela usufrui quando a gente consegue. Não vou arredar pé daqui mais não, cansei, como a senhora diz que está cansada. Essa turma da classe média se juntou aos ricos e à mídia para destruir nosso país, agora eles resolvam o diabo que plantaram.

Rosária se afastou da conversa enquanto Bia discutia os problemas diários. Parecia enxugar os olhos, teve impressão Bia que seguiu seu distanciamento até o portão.

Após assistência a Dona Cotinha, Bia e Rosária foram pelo estreito caminho até a próxima casinha.

― Ruza, que que houve? algum problema? posso te ajudar?

― Enquanto você conversava com Dona Cotinha, fiquei pensando no prefixo ‘inha’ do nome dela. Afastei para não interromper a conversa.

― Dona Cotinha é conhecida. Vizinha de minha casa da infância. Nossos pais são próximos e quando mudou de lá, os pais de Josué foram morar na casa. Ela é como parente. Aliás, nosso povoado é muito unido e graças a isso temos conseguido conviver com as dificuldades atuais. Que te fez associar o ‘inha’ de Dona Cotinha?

― Lembrei do nome que costumavam dar à minha mãe. ― Rosária então foi contando a história.

 

Casebre em polvorosa. Afinal chegara o Natal. Todos esperávamos com euforia a nossa mãe laboriosa dar jeitinho que tivéssemos dias felizes. A mãe se esforçava um bocado a mais, lavava roupas ali, faxinava dacolá e no dia do bom menino, lá estava a esperada surpresa das crianças, que sapecas corriam pra rua a mostrar o que o bom velhinho escolhera. No fundo sabíamos vinda de nosso pai e nossa mãe.

Não importava o chão pobre, ali o amor era ordem natural vinda de Dona Santa e do sorriso prestativo do Seu Jair (nem tudo é perfeito!). Os cinco filhos pequeninos, saltando idade ano a ano a partir dos dois em escadinha. Dona Santa. Nome que lhe puseram, pois do tempo de auxiliar de enfermagem trouxera o manejo na aplicação de injeção. Quando os vizinhos necessitavam lá estava ela com a caixinha de metal e seringa esterilizada de casa em casa, onde lhe acenassem. O nome veio daí, do prazer em servir a comunidade em redor. Dona Santa ou Santinha não tem preço, diziam. Era gratuidade no rosto amigo, sempre disposta, sempre risonha, não riso escancarado e vulgar, mas a risada dos bons, dos afetuosos, dos coirmãos. Tratava a todos com o respeito que todos mereciam.

Até mesmo Seu Manoel, de quem era inquilina, tratava Dona Santa com jeito especial. Seu Manoel e seu filho Noel residentes na chácara em cerca aos barracos que alugava, chamava a molecada para folia, correria, brincadeiras e no final, amontoada nas mangueiras e goiabeiras, ou catando pitangas e jabuticabas saía lambuzada, e o sotaque do português se expressava ‘ora, ora, pois, pois’.

            A gente dá muito valor a mãe da gente. Não era diferente lá em casa, onde a mulher do lar comandava hora do banho fazendo o possível na economia da preciosa água. Arrumava a gente como princesa e príncipe daquele reino. Ali a gente brincava até ela designar hora de dormir.

            Em nossa casa sempre havia festa. A família reunida entre vizinhos que da família se tornaram era motivo de festa. A convivência e as palavras expressão de amizade. Lugar de proximidade e escuta, minorando o suor do dia a dia do povo trabalhador. Era ali guarita hospitaleira.

E a gente se alegrava ver a mãe dar risadas, o vibrante corpo exalar prazer com’a vida construída ao esforço. A gente via, às vezes, ela ao canto em silêncio. A solidão está em todas as pessoas. A solidão estava em minha mãe. Dona Santa que viera de Goiás Velho. Vai ver saudade do Rio Tocantins, de proezas de menina que ficaram lá trás quando o pai permitia brincadeira, do momento que de cima da árvore o corpo flexível voava e aos gritos de liberdade mergulhava no rio. Saudade que mesmo gente crescida não esquece.

Quando penso em natal penso em minha mãe. Seus natais eram tão diferenciados, simples e ousados e todos ficaram em minha memória. Dona Santa vive. Nossa mãe vive.

 

― Nossa, que história, Ruza. Legal ter mãe com nome de santinha. Você contando a gente vê a aparente e santa pobreza, que nem a da Sagrada Família. O povo pobre reflete as dores e aflições de Maria e José nos esforços em proteger ao filho de Cristo. Então hoje que vivemos tanta tragédia com a covid, é tão visível a miséria em redor, né! Por que quem é bem aquinhoado não solidariza com nossa dor, Ruza?

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

soltando os cachorros (CENA 44)

 



 

‘A cachorrinha pegou a latir,

nesse ofício que quase todo cão tem,

de ser presumido valente.

Com licença de João Guimarães Rosa’ e

Adélia Prado

 

― O que vem nos revelando esse começo de 2021, Bia, dá pra enlouquecer. Caminhamos pra duzentos e cinquenta mil mortes pelo corona num contínuo descaso desse governo às nossas vidas. Vinte de fevereiro e ouço só notícia ruim, e corro daqui dacolá do povoado para ajudar as famílias. Além de Manaus sem respirar, aumento de casos em tantos outros lugares também. E aparecem as variantes do corona. E as dúvidas das vacinas não dar conta da mudança do vírus. Tanta fake ainda, a cloroquina ainda, a ivermectina ainda, a teimosia em não usar máscara, a ... Precisamos de basta.

― Basta, isso mesmo Ruza, basta, está difícil viver esse clima, estamos esgotadas mas esse esgotamento não é de cansaço, é de ver a inércia desse governo e legislativo que não dão conta de evitar os desastres da pandemia, que até hoje não definiram o auxílio emergencial e querem aprovar a merreca de 250 reais, um abuso, com tanta gente em dificuldade e sem opção.  Agora pra despistar, somente falam do tal deputado preso por vociferar contra instituições. Enquanto isso as pessoas morrem, não têm vacinas, o governo não têm planos, estamos ao Deus dará. Queremos clareza sobre vacinação, quantidade de vacina para todos brasileiros. Não é esse miúdo que reverberam nas notícias que nem dá pra vacinar muita gente. Precisamos aprumar.

― Exigimos elegância, respeito e consideração para com o povo. O povo não é tratado assim. Aqueles que vendem nossas riquezas são tratados com elegância, respeito e consideração. É absurdo. Aquela cantora diz ‘é muito difícil lidar com esse culto de morte dessa época que vivemos’. Está certa. Caos e nada além de caos. Em nossa cidade os leitos entraram em saturação, estão lotados. Quanta incompetência, cadê a ótima logística que alardeiam pelo país?

― Desde quando começou o ano não temos um pingo de paz, somente desastre e desatino nesse país largado e sem ninguém para pegar o leme, credo viu, ando de cuca quente, procuro ajudar, e nem assim descubro saída. O natal e ano novo passamos escondidos dentro de casa e agora está mais terrível que antes, sem as pessoas serem socorridas tanto na saúde quanto no dinheiro para o mínimo digno a cada um. Onde esses ‘gestores’ andam com a cabeça? nas nuvens?

― Não tivemos natal, ano novo, não tivemos carnaval, e nem teremos semana santa. Será o ano inteiro nessa vagareza de decisões que vêm de cima? E ainda assim existe apoiadores. Não quero crer nessa insanidade, deve ser porque são mal informados, acreditam nas fakes, só pode.

― Bia, não tem jeito. Solte os cachorros. Eu solto os cachorros também. Já estou com dificuldade de respirar, e se pego o corona nesse ambiente saturado dos atendimentos de saúde pública? Nem quero pensar e nem posso ficar em casa, como muitos podem estar em suas macias almofadas. Preciso trabalhar mesmo na falta de oxigênio.

            ― Ruza, ali está a casa de dona Cotinha, vamos lá saber do que ela precisa. Esse é nosso trabalho, a gente reclama mas não se acomoda, nem se acovarda, corre atrás de solução. Talvez donas de casa saberiam administrar melhor que esses aí no poder.

            ― Nem tem dúvida! Vamos lá! Dona Cotinha, tudo bem com’a senhora?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

a luz deve brilhar a todos (CENA 43)

 


            A convivência com aquele homem modificara rotina de Luiza. Tem agora um amigo. Osvaldo trazia dúvidas e contradições em seu pensamento sem vislumbre profundo do amanhã. Sentada, com pés descansando no murinho da sacada relembrara velhos tempos.

 

Luiza e Fábio curtiam a natureza verdejante abaixo da grande árvore de frutos em aspecto rosáceo-avermelhado. Apaixonados, esquecidos dos compromissos e do que a sociedade esperava de cada um. Cada um de origem diferente e naquele momento em irmandade do amor. Afinal a luz deve brilhar a todos.

Ao longe apreciavam a paisagem digna de quadro divino. As montanhas cobertas em tonalidade de pincel nos verdes caminhados entre pálido e amarelo. O céu claro com leves nuvens desenhavam estradas suaves e se imaginavam naquele local livre de preconceito. A Amazônia em sua exuberância aos caprichos da paixão.

Ela vinda de indígenas ianomâmis, ao sol lançado entre folhas trazia luz à sua pele dourada. Ele cara pálida comum boquiaberto com a beleza de mulher que conhecera no local de trabalho. Uma menina-mulher, a bem da verdade. Mas o que havia nela para transformar o dia a dia ele se perguntava. A vida dá sempre chance pra gente fazer o que quer. Queria estar com ela. Ambos em sintonia com a agreste beleza e aos poucos encontrando-se um ao outro. O desejo caminhava devagar e ela sentia o medo aparecer aos toques da mão carinhosa do namorado mesclado ao interesse de conhecer a fonte incandescente. Tinham sede. Eram jovens descobridores.

A tentação surgia e permitiam-se o estado original. Tentar tantas vezes o lema humano transpassava corpos livres. Bebiam de fonte natural.

 

Enquanto isso Osvaldo levara o vasilhame calmamente. Respirava sem sofreguidão e pudera, me esqueci de fumar tantas vezes como de hábito, até nisso Luiza me ampara. A mulher fazia a vida ganhar cores as quais pensara desaparecidas de seu cotidiano. Uma amiga nesse vale longínquo vale. Não sei por que estranhar amizade entre mulher e homem. Por que será dúvida para ela?

Cuidava da lavação da louça e viajava na água jorrando.

 

Cândida levara Osvaldo a conhecer praias da ilha, a Joaquina, Mole, Galheta, Moçambique, Daniela, Campeche, Canasvieiras, Jurerê, Ingleses e tantas outras. Os banhos ao sabor das ondas jorravam e os dois riam feito criança.

Osvaldo fascinado com a namorada. Sua perfeição acima de discussão. Na realidade respeitava-a como é. O período de bulling lhe ensinara tanta coisa. E o caráter da moça impecável. Ela sofrida do tratamento agressivo do câncer e nem assim perdera a redondeza das formas.  Os dois se pareciam e se gostavam. Era incondicional a admiração de um e de outro. A paixão elevou o afeto. Casaram-se e a fase de dor passou para ambos.

Tem razão o que se diz de tentação. A permissão de tentar tantas vezes transpassa corpos livres. Jorrava água de fonte natural.

 

Assustou-se com chegada repentina de Luiza dizendo:

― Valdo, fiquei acostumada à paz, mas a obrigação me chama. Tenho de ajeitar casa e trabalhar amanhã. Está de pé nosso encontro on line na data natalina, não é?

Osvaldo fechou a torneira. Limpou as mãos, virou para Luiza e meneou a cabeça. Ela com pertences pendurados ao ombro enviou beijo entre máscara e saiu. Ele acompanhou a saída e voltou ao enxague da louça. Após apanhou cafezinho, o cigarro e se dirigiu à varanda. Vamos ver o que nos revelará 2021, disse com rosto questionador.

domingo, 31 de janeiro de 2021

a pensar (CENA 42)

 

Foto Jaimerchagas

22/01/2021

Em cento e oitenta graus Luiza frui uma vez mais a confortante paisagem.

― Valdo, ouve! O galo anuncia novo dia e nós ainda na libertária noitada, e atrevidamente com direito a abraço. Ando apreciando esse tempo de paz na sua casa. Morar sozinha me agrada se a gente é capaz de velejar por todos os polos e depois descansar no canto escolhido, o que hoje é impossível, não é? Mas é hora de dormir, concorda?

― Lar é básico e todos têm direito. Como te disse, o quarto está arrumadinho. Vamos, me ajuda levando as coisas pra cozinha. ― Levantaram-se, colocaram máscara. ― Depois cuido da louça.

O apartamentinho de cinquenta metros quadrados, mas a tão agradável divisão dos cômodos dá amplitude. Luiza ia comentando antes de entrar no quarto. Mais uma vez quebrou rotina epidêmica e abraçou o amigo. Osvaldo desejou boa manhã e beijou-lhe os cabelos dizendo, tem manta na bancada, às madrugadas vem a friagem.

Luiza acordou com fome e abriu a porta olhando Osvaldo desaparecer pelos lados da sacada, vestido de preto, em camiseta e calça larga, e correu a observar a arrumação, ele disse:

― Armação minha. Apesar de quase meio dia imaginei que um café dá visual especial.

― E eu ainda de pijama, vou me trocar.

― Está confortável? Porque não importa. Minha roupa é tipo pijama, estamos iguais ― e apontou para si e para a banqueta. ― Como foi a noite, ou melhor, a madrugada? Quer café ou chá?

― Valdo, não estou acostumada a tanto mimo. Pra dizer a verdade, coisa difícil hoje neste país, dormi tão profundo e me entreguei a Morfeu como há muito não me permitia. ― Sorriu Luiza.

― Também não posso reclamar. O galo me guarneceu sono poético.

Terminada a refeição, Luiza pediu desculpas por ter se ocupado apenas de seus problemas.

― Todos temos histórias, Luiza. Eu te escutei. Tenho as minhas também.

― Valdo, tenho dia inteiro, esqueceu que nem trabalho hoje? Quero te ouvir. Quero te conhecer mais. Quero um amigo confidente.

― É raridade amizade profunda. Amizade com afinidade de princípios e valores. Mas se se encontra, a pessoa é felizarda. Fernando Pessoa escreveu que um amigo íntimo era seu ideal impossível devido olhar para a hipocrisia e vaziez da sociedade de conveniência, a que a gente se assusta a cada dia em nossa realidade.

― Valdo, te ouço. ― Luiza colocou alimento à boca e respirou tão fundo quanto Osvaldo. O alimento dissolvia lento.

O homem humilde, olhar de súplica, rogava bom ouvido à oração. Ofegante, comedido, inseguro com o lenitivo que Luiza oferecia. A família vivia em Belo Horizonte. Minas vive em mim em qualquer lugar que eu esteja. Ainda indeciso se continuava, instante depois revelou o acidente.

― Não me lembro de nada após o ônibus atracar nosso veículo. Quando acordei no hospital, meus pais e meu irmão, toda minha família não vivia mais. Eu tinha trinta e três. Mudei-me para a Ilha de Santa Catarina e trouxe sentimentos que me dilaceraram longos três anos. É difícil a solidão. Foi quando conheci Cândida. Inicialmente ela me lembrava antiga paixão, um carisma, atrevimento, e depois me apaixonei, ela foi meu esteio, eu largava o jeito torto que caminha comigo. ― Osvaldo interrompeu e bebeu o líquido já frio da caneca.

― Está bem? ― Luiza perguntou após breve silêncio.

― Quando a conheci tivera câncer, mas compensada e curada. Fazia acompanhamentos necessários. Tivemos um casamento bem legal. Depois a doença surgiu em outro lugar e se alastrou. Quando aconteceu tinha cinquenta seis, como você. ― Osvaldo levantou e acendeu cigarro. Foi ao canto da varanda. De lá continuou ― Vivi lutos doloridos em minha vida. Você me entende. ― Luiza assentiu.

― Por outro lado é estranho, quanto mais se vive mais se presencia tal questão difícil de lidar, não é? A morte. Nossa única certeza e o sofrimento de falar sobre. Falei de Cândida, você relembrou sua história. ― Osvaldo engasgou, mas continuou o raciocínio.

― Já as tantas mortes oriundas da pandemia não haveria se houvesse planejamento, seriedade, ética na governança. Quase cento e noventa mil mortes neste vinte e três. Vivemos atmosfera de morte de uma forma terrível de descrever. Vivemos a desumanização constante. Urge reconhecer para que se abra agenda humanizante. Que natal teremos. Nem consigo imaginar o que nos aguardará em 2021. ― Apagou a bituca, jogou no cinzeiro e sentou-se, enquanto Luiza:

― O estado ajoelha pro mercado financeiro e acata as ordens e destrói o povo, a nação. Não tem jeito da gente achar que a morte deva ser velada. A morte deve ser escancarada. Devemos exigir dignidade para nós brasileiros.

― O que disse do natal, apesar das dores que vivemos, acha possível, seria desrespeito, Valdo? Simples confraternização de natal on line? A gente poderia combinar com Dodô, Ritinha, seus amigos do grupo da esquina, se quiser, para que a gente não fique tão solitária, pois aglomeração está fora de questão. Amanhã trabalho até às dezessete. Assim, a reunião seria entre dez da noite até romper a passagem do natal. E o mesmo na entrada de ano. Acha razoável?

― Será bom rever e conviver com a turma mesmo à distância.

Osvaldo levantou, mascarou-se e ao juntar as louças, Luiza acolheu a mão na dele e o abraçou.

― Sinto tanto por nós, meu amigo. Mas você me convenceu, existe momentos amigos e inimigos. Ter amigo conforta a dor. Estou feliz por te conhecer.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

silêncio da noite (CENA 41)

 

22/12/2020

            Os grilos cricrilavam, os gatos pisavam macio, o farfalhar das folhas alertou os dois madrugadores.

Luiza em seu silêncio interior. Osvaldo ao olhar em sua direção viu que sorrira levemente e ela continuou com as perguntas:

― Quantos familiares têm passado por perdas e nem podem estar presentes. Tudo acontecendo tão violentamente. Você está aqui comigo, mas e eles? Cruel realidade. A cada momento famílias sacrificadas. Onde está a dignidade necessária a esse momento tão doloroso?

― E saber que acontece todo ano, todo ano mortes e mais mortes de pretos, pobres e periféricos, tal qual as tantas durante a pandemia. É terrificante. Somos país escravagista. O estado não os protege. Como continua fazendo durante a covid.

Luiza fez uma pausa. E disse:

― Acha possível um homem e uma mulher serem amigos, amigos de verdade?

E depois já mudando assunto sem esperar resposta, perguntou inesperadamente:

― Ah, Valdo, que devo fazer? Ando com tanta dificuldade de conviver com amigos após eleição de 2018 pela escolha feita. Eles devem estar incomodados com minha reação.

― Nenhum amigo meu fez tal escolha, pelo menos os mais chegados, de convivência. É difícil aceitar e até entender como pessoas inteligentes votaram nesse candidato com histórico terrível de trinta anos, e de conhecimento de todos. Seja por qual motivo for. É incompreensível. ― Osvaldo respondeu.

No silêncio compreensível, Luiza após um tempo:

― Também penso assim, o que se torna ainda mais difícil.

― Siga adiante. Encontre amigos com os quais tenha afinidade. É tempo de mudança. Tempo de transformação. ― Osvaldo disse.

― Como as eleições de 2018 destruíram relacionamentos, hein? Ouço falar de mães, pais, filhos, maridos, esposas, que se separaram ao descobrir que, no fundo, seus parentes são retrato atual.

― Você está com dúvidas, queixas, é normal. Por que não escreve, põe tudo no papel? Nem precisa ser literata, deixe emoção e sentimento agirem e explore os temas. Conte incômodos, ideias, sem censura inicialmente, clareie zonas cinzentas, quem sabe encontre respostas que somente você é capaz de responder.

― Li o livro do Javier Cercas, O Rei das Sombras, contando a história da Espanha na época de Franco, e de como o fascismo tomou a todos feito cegueira coletiva. Grande parte da população apoiou o fascismo. Tempo em que milhões de espanhóis foram dizimados por discordar do pensamento único. Até os que votaram a favor do franquismo já não tinham segurança e se questionassem, também eram eliminados. Depois de muitos anos a sociedade tinha vergonha admitir tal escolha. Segredo levado ao túmulo. O escritor uniu ficção e realidade a partir da história de um tio que aos dezessete anos quis servir a Espanha de Franco, sem noção de estar escolhendo o lado errado. Você leu?

― Li sim, ― respondeu Osvaldo. E completou ― Aqui no Brasil foi diferente. Na verdade, dos cento e quarenta e sete milhões de eleitores aptos ao voto, apenas cinquenta e oito milhões de pessoas, isto é, trinta e nove por cento votaram no atual presidente. Então, mais de oitenta e nove milhões de pessoas aptas, isto é, mais de sessenta e um por cento não aderiram ao candidato. A culpa deve ser atribuída também aos que votaram em branco, nulo e não compareceram, pois contribuíram para a mazela, totalizando quase mesma quantidade dos que o elegeram. Aliás, já temos muitos arrependidos. Por mais se diga que foi para não eleger candidato do partido progressista, a gente sabe que isso não é verdade. A verdade é que se viram no espelho.

E continuou:

― É tema para discussão, porque no fundo a gente sabe das mãos invisíveis do mercado, da elite, juntamente com a mídia, que construíram a narrativa de seus interesses e esses tantos brasileiros que não enxergam todos os lados de forma dialética, aceitaram a história contada e fizeram a escolha. Não sei como agiria se algum amigo tivesse feito tal escolha, dado o histórico do candidato. Talvez estaria como você. Quando a raiva bate, é fogo combater. Avalie com tranquilidade, pense neles como colegas. Colegas que se respeitam.

Luiza considerou com a cabeça. Em seguida perguntou a Osvaldo:

― Natal quase chegando. Lembra a confraternização do ano passado, a gente ingênua quanto ao corona, e os sentimentos, a emoção, a esperança, as expectativas, a ... quem diria que 2020 caminharia para esse astral?

― 'É preciso tecer o amanhã, deixe que o rio que corre seu corpo chegue ao mar. Só faça o que o coração mandar’, como diz meu amigo, Fessor.


* Frase do escritor ronaldclaver

sábado, 26 de dezembro de 2020

segundo tempo (CENA 40)

 

Foto  jaimerchagas

21/12/2020

            A essência vermelha em interação com atmosfera permitira Luiza enveredar caminhos sem censura e amealhando resquícios aqui e ali, engavetados na memória do tempo, vinham livres, em perguntas que demandavam ou não respostas. O espírito dionisíaco lhe dizia para soltar-se, voar, poderia ser ela mesma sem máscara, sem subterfúgios. Voltou olhar para Osvaldo.

― Precisa experimentar o Mani-Oara, vinho da mandioca feito por mulheres indígenas. Protagonismo feminino. Produto da sustentabilidade. Além de valorizar cultura, o bem viver, preserva saberes e usos. No próximo encontro vou trazer pra você.

― Interessante nome! Ora, com certeza é indígena, qual significado?

― Mani-oara é uma formiga. Como as formigas são mais fortes juntas, mulheres também. Os produtos são cem por cento amazônicos. As mulheres são resilientes, como a minha terra.

― Vou adorar o presente. Quando quiser dormir, diz, está bem?

― Enviei mensagem para uma colega me render amanhã. Então, estou sem pressa. Podemos ficar um pouco mais? A noite está tão fresca que impressiona.

― E sua filha, Luiza?

― Minha doce e sensível criança... ― Enquanto contava, levantou-se.

Luiza saía para o trabalho pela manhã. O marido trabalhara noite toda e apenas a esposa se despedido, foi atrás de cigarro. Ao ver o maço vazio e perceber a menina dormindo tranquila, saiu. O boteco perto de casa fechado, caminhou algumas quadras até encontrar.

― Minha filha tinha asma crônica e os cuidados começaram cedo. Quando ela tinha três, casei. Meu marido não era o que se pode chamar homem caseiro. Gozava noite em bares após trabalho. Durante o dia, cuidava da pequena já com sete. Não explicou porque a deixara sozinha, sei lá, cigarro, algo assim, e a deixou por minutos, quando retornou ela dormia o sono dos anjos para sempre. Os dois amores de minha vida, e eu não estava lá quando precisavam.

― Luiza, coloque a máscara. ― Osvaldo já mascarado ordenou, e Luiza obedeceu sem resistência.

As lágrimas lhe escorriam e molhavam o tecido quando o homem desobedeceu as regras, e apertou a mulher nos braços, procurou manter o rosto afastado do rosto de Luiza e ao ouvido dela sussurrou palavras consoladoras. Em seguida, Luiza lentamente escorou a face no peito de Osvaldo, ouvindo as batidas fortes e os tremores que vinham de ambos corpos. Ele a enlaçava, protegia aquela criança.

― Oh, meu bom amigo, quem diria que à altura da vida eu encontraria bom ouvido. Meu casamento vinha desgastado e percebi aquele homem ausente e egoísta, que enxergava apenas si próprio. Coloquei fim no relacionamento, mesmo assim ele me perseguia. Um tormento. Fugi. Ele me descobria, ameaçava ainda assim. Naquela época não tinha a Lei Maria da Penha, se hoje é difícil para nós mulheres mesmo tendo esta lei, imagina anos noventa.  Somente me deu sossego após encontrar outra. Enfim, mudei-me para cá, mas o passado me faz companhia. A pandemia soltou meus demônios. Desculpe-me!

― Nenhuma dor se compara a perda de entes queridos. Te entendo, minha amiga, te escuto, vem, senta um pouco. ― Osvaldo apoiou os braços dela até assentar e deram-se a mão. Com a outra entregou-lhe o cálice.

Passada a meia noite aquela varanda era Pasárgada.