domingo, 24 de março de 2019

IDADE DE SENHORA V

IDADE DE SENHORA V
03/03/2019

  Cheguei à consulta com o fisioterapeuta responsável pelo método Musculação Terapêutica. Fui entrando e ele me dizendo que faríamos avaliação inicial, fundamental para definiação das estratégias. Mal escutei o que me dissera, olhava fixo para seus pés, pois pareciam pés de pato.

   ― Que tênis interessante, ainda não tinha visto igual. ― Falei.

   
   ― Também acho, e muito confortáveis, calçando cada dedo separadamente, os Five Fingers. A empresa que lançou-os é artesanal, não tem condições para grandes demandas. Acabou que grandes marcas passaram a fabricar com nomes diferentes, são os novos tempos.

   ― O mercado é agressivo, compreendo perfeitamente. Não vi nas lojas.


   ― Pela Internet você encontrará marcas à escolha. A gente se sente descalço. Não troco por outro modelo, disse o profissional, retomando o tema principal, ― vamos ao exame.

   
   Relatei o tombo, a quebra do disco vertebral, a questão da osteoporose, a exigência de exercícios físicos enquanto viver, o gostar de musculação. E ainda, mencionei que o médico tinha dito que o disco quebrou devido músculos flácidos. Expliquei que nunca deixei de exercitar a região abdominal e pernas desde a juventude, apenas outros exercícios eu estava relapsa. Ele complementou:

   ― Talvez por isso o trauma não foi pior. Se não se exercitasse de forma alguma, a fratura poderia ser mais intensa. Isso a protegeu. Este pode ser o outro lado.


   ― Não tinha pensado por esse ângulo.


   ― Pois é, devemos olhar por diversos ângulos. Vamos aos exercícios. Exercício de força com mãos, pernas, controle dos tendões... Esse aplicativo/programa foi criado por Dr Spa.


   ― Esse nome me soou familiar, devo ter visto na rede.


   ― Faço pouco marketing, minha preocupação é a saúde.


   ― Quando vou saber o resultado?


   ― A secretária entrará em contado com a senhora. ― Ele se despediu e em seguida, entrou a próxima cliente.

domingo, 17 de março de 2019

O GATO

O GATO
07/12/2018
            Levantou cedo. Abriu a porta do quarto que dava acesso à varanda no primeiro andar. Manhã nublosa. Buscou caderno e caneta. As árvores no lugar. A primeira árvore, a buganvília entre telhados, mareava seus olhos de vermelho intenso, quase um tom vinho tinto. A segunda árvore, toda alaranjada em tom forte, vibrava mais à frente. Árvore que povoou a infância, jogando ao chão botões e quando se pisava neles, espirravam longe o líquido – “Xixi de gato”. Ao lado uma linda palmeira. A terceira árvore, um ipê amarelo sem floração. Os ipês daqui, do Sul, não florescem com a intensidade dos da terra natal. Além do que, o ipê está dominado por ramas de maracujá.
            Enquanto escrevia, sentada na cama, um pintassilgo cantava sem parar. Escutava sons de outros pássaros, a passarinhada entoava o canto da manhã.
            A quarta árvore que lhe chamara atenção, estava bem verdinha. Na época de florada emoldurava-se, cacheada de flores amarelas em pendão, tão magníficas que ofuscavam. E pensar que pedira ao jardineiro que a cortasse, pois desconhecia o pendão, devido à sombra na horta. O jardineiro não a escutara.
            Olhou ao fundo um tronco dessa árvore. Viu um gato. Um gato preto descansando. Olhava fixamente e ainda o gato. Olhar luminoso, olhos que brilhavam em sua direção. Espiavam. Insistentemente. O gato descansava e observava a obsessão da mulher a sequentes perguntas: será mesmo um gato? será imaginação? Abriu mais os olhos, olhos míopes, e a imagem de gato permanecia. Não quis buscar os óculos. Um gato preto de olhos amendoados de paralisar.
            Enquanto persistia olhar, pensamentos divagavam. Estava tão difícil a aceitação. Por mais que refletisse não conseguia assimilar o ódio. Ódio que distanciava a convivência. Pessoas escolheram algo cujos valores e princípios diferiam dos coerentes.
            O ódio. O gato olhava com assombro. Como se visse o fundo, o fundo oco da mulher. Um ódio do dia seguinte. Que persistia. Iria embora? Não sabia o que era ódio. A não ser quando criança, depois de boa surra da mãe. Desenvolveu depois de velha?
           O gato olhava fixo. Não se mexia. Não se movia. Apenas observava com olhares inquisidores. Até que ela percebera, o gato não era um gato, e sim um pedaço do tronco.
Mas que importava. Ela via o gato!

sábado, 16 de março de 2019

ACTUM SANCTUM I


ACTUM SANCTUM I
11/03/2019
Encontrou a filha no corredor superior. Antes de descer a escadaria comentou:
― Cheguei à conclusão que estou em processo de Alzheimer.
― Por quê?
― Tenho esquecido as coisas com muita frequência, coisas mínimas que começo a fazer, me distraio com outras e quando me lembro, é somente muito depois. ― E continuou, ― Ouvi falar que tem algumas coisas que os doentes vão deixando de fazer, por exemplo, fazer amor, ter relação sexual. Não sinto falta.
― Ah, mas isso eu concordo. Quando tiver essa idade acho que também não terei vontade. A pessoa deve ficar cansada.
― O pior mesmo é perder a autonomia, isso é triste, saber que vocês decidirão sobre a minha vida. ― Disse a mãe, enquanto descia os degraus e parou na metade ao ouvir a filha:
― Procure fazer coisas diferentes.
― Eu vivo procurando e fazendo. Idiomas, ... ― foi relatando as atividades extras. ― Tem jeito não, o que tiver de ser, será!
Chegou à cozinha. Lembrou-se de que tinha colocado as embalagens de carne sobre a pia, para separar em pequenas quantidades e guardar no freezer, isso há uma hora. A carne já não estava lá, sobre a pia. Abriu o freezer e as carnes separadas e acondicionadas, como ela sempre fizera. Dessa vez não foi ela. Pensou: “Que bom, fizeram o trabalho, aprenderam.”
Preparou algo rápido para seu jantar. De tempos para cá, não se preocupava em arrumar refeição para mais ninguém. Todos crescidos e o marido preparava a própria, apenas salada leve. Ela agora entendia o significado de conversa recente com ele:
― Sabe, estranho o que está acontecendo comigo. Eu não procuro vir para a cozinha e fazer o almoço, não me preocupo se tem alguém para almoçar, ou se não tem. Preparo somente a hora que me dá vontade e quem não estiver satisfeito, que faça a própria refeição.
Sentou-se à mesa, foi rasgando devagar o pão no molho branco com carne. E no pensamento, analisava os lapsos recentes: “estava desmazelada consigo mesma, a casa desleixada, já não via tanta limpeza e ela não via necessidade de limpar. Não tinha o interesse, que antes julgava até exagerado, de saber o dia a dia de cada um, de se reunir com eles à mesa, de participar das conversas familiares, de estar atenta às solicitações. Apenas permanecia em suas atividades.”
Atividades que estavam mais espaçadas, adiadas, quantas leituras por ler, quantos livros por escrever e começados, a nova história interessante e necessitando digitação para não perder o fio da meada. Nada. Nada era importante. Era como se o tempo, o tempo da fantasia, fosse ganhando espaço, e nem tinha vontade de ir para a cama. Queria ficar ali, na varanda, deitada na rede, sem objetivo nenhum, olhando a chuva e ouvindo os barulhos da noite.
Dera também para fechar a porta do quarto e por lá ficar. O marido lhe perguntou:
― Por que agora você sempre fecha a porta?
― O barulho caseiro me incomoda. Quando fecho a porta, sinto que se abre um mundo novo, sem barulho, sem confusão, sem preocupação, tudo ficou do lado de fora da porta. Assim, espero a inspiração. Eu entro aqui, esqueço obrigações, marido, filhos, cachorros, todo o tempo para uso exclusivo. Estou achando proveitosa a experiência e dando razão dos meninos gostarem das portas fechadas.
Terminou de jantar. Verificou o que faria para o almoço do dia seguinte. Fechou a porta do quarto. Queria escrever. Sentou e esperou.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

IDADE DE SENHORA IV

IDADE DE SENHORA IV
13/02/2019

       Tentei marcar um fisioterapeuta pelo plano de saúde, que dificuldade. Não se acha. A maioria dizia, somente atendimento particular. Atendimento particular marcado.

    ― O doutor já irá atendê-la. Aguarde um instante, ― gentilmente a secretária falou.

     ― Vamos senhora, ― o fisioterapeuta chamando à porta e me conduzindo ao estúdio com aparelhagem apropriada, amparando minha mão com todo cuidado. ― O que posso fazer pela senhora, está com dores?

   O senhora me soou familiar e a forma como me conduziu ao consultório considerei exagero. O fisioterapeuta realmente era bem jovem. 


   ― Sou Marcus, o fisioterapeuta, ― ainda disse.


   ― O ortopedista fez uma recomendação para sessões de fisioterapia, eis o pedido e os exames. ― Contei todo o ocorrido.


   ― Deixa eu ver os exames primeiro. A partir deles saberei se a senhora precisará de sessões. Hum, esse médico gosta de rabiscar exames, hein.


   ― Ele fez umas medições, disse ser importantes.


   ― Pelo que vejo aqui, a senhora teve sorte, um disco foi lesado, mas já estabilizado. Tem realmente a curvatura muito intensa da coluna lombar e pessoas com tal fisiologia sentem mais dores. Está doendo muito?


   ― Não mais. Melhorou bastante. Vim porque ele exigiu que fizesse fisioterapia.


   ― A senhora está fazendo exercícios?

   Expliquei pausado o que me atrevi a fazer, e que interrompi após pedido do ortopedista.


   ― Pelo que vejo aqui, a senhora não necessitará de sessões de fisioterapia. Somente esta será suficiente. Toda consulta já é em si uma sessão e a senhora sairá daqui após os exercícios necessários.


   ― Tem certeza de que não preciso? o ortopedista insistiu que fizesse dez sessões. Bem disse que provavelmente o fisioterapeuta iria modificar a prescrição dele.


   ― Médicos não entendem de fisioterapia. Os pacientes estariam perdidos se dependessem deles. Não estudaram essa parte da medicina, para isso existe o fisioterapeuta.


   ― Realmente médico se considera com domínio do "saber médico" para definir diagnósticos. ― eu disse.


   ― Bem, a senhora terá de fazer exercícios para fortalecer a musculatura que protege a coluna por toda a vida. Aqui mostra, está flácida. Isso não pode ocorrer, com a idade vem também problemas de osteoporose. Gosta de academia? Musculação?


   ― O ortopedista me orientou fazer Pilates, disse ser o adequado para a idade. Não gosto de Pilates, prefiro musculação, mas ele disse que era proibitivo. Não quero saber de academias também, prefiro academia da cidade. 


   ― Não adianta fazer Pilates se não gosta. Existe vários tipos de musculação. Você pode fazer sim. Não tem nada aqui que a contraindique. Se não quer academia de ginástica, pode fazer a musculação terapêutica ou a da cidade. Vou te encaminhar, e você decide. 


   Após exercícios de alongamento saí da sessão satisfeita, me sentindo outra e decidida a conhecer o tal método terapêutico. E, à saída, eu ainda disse ser ele a segunda pessoa que eu conhecia com aquele nome, com "U", o outro foi o primeiro namorado.


   ― Agora a senhora conhece dois. ― Despediu-se o fisioterapeuta. 
 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

VISITAS DE TIRAR O FÔLEGO

VISITAS DE TIRAR O FÔLEGO
11/02/2019

       Receberam duas visitas inusitadas. Mãe uruguaia e filha argentina. Figuras que se poderia nomear estelionatárias, do tipo 171.
            Recebiam hóspedes, competindo com hotéis e pousadas locais.
            ― Acorda, tem duas mulheres na porta perguntando se tem vaga para hospedagem. ― O marido acordou a esposa aos sobressaltos. Assustada levantou de pronto, e foi à porta.
            ― Ficamos sabendo que vocês alugam pelo aplicativo. Estávamos passando e vimos a casa, minha filha é boa para observações, tinha visto na internet e lembrou-se da varanda, do estilo, tinha certeza de ser esta. Sabemos que tem outras para aquele lado e aquele outro ponto, mas preferimos aqui.
            ― Alguém indicou vocês?
           ― Algumas pessoas comentaram. Na verdade estamos no hotel próximo e gostaríamos de ficar mais dias mas lá está completamente lotado. O cartão de meu filho não passou, o outro filho que ficou em casa, por isso não pudemos fazer reserva pelo aplicativo. A pulseira provando que estamos no hotel ― mostrou a pulseira vermelha, sendo seguida pela filha. ― Quanto cobra?
            Comunicou o preço para três dias, pagamento antecipado.
A mulher concordou. A filha, tímida, nada falava, ou concordava com a cabeça.
            ― E também que você e o esposo administravam.
            ― Os filhos também.
            ― Ah, tem os filhos. Pensamos que fossem somente os dois.
            Quando foram buscar a bagagem, a anfitriã comentou com os familiares:
            ― Achei alguma coisa estranha.
            Retornaram duas horas depois. Pagaram. A filha falava razoável portunhol e a mãe parecia ter mais dificuldade. Enquanto entravam a dona da casa começou a hablar español con ellas. Foi explicando que somente o desayuno estava incluso, o que ficaram surpreendidas, que bom, oh! e aos sorrisos. Como estavam sem almoçar, deixaria a explicação do funcionamento da casa quando retornassem, falou a anfitriã.
            As mulheres se apresentaram.
            ― Eu sou Luz dos Pilares e minha filha Luz de Nise.
O filho solícito as acompanhou até o self service próximo e por lá ficou, retornando com elas. Logo em seguida, levou-as à praia cerca de quatro quilômetros. Ficaram por lá até fim de tarde. Quando chegaram, as mulheres solicitaram chá com bolo, disseram ser costume argentino. Elogiaram o saboroso bolo de chocolate, como era feito, tão fofo, o segredo era bater bem? Precisava aprender, disse a uruguaia. À noite, o filho ciceroneou até à pizzaria. Dormiram tranquilas e saciadas.
            Pela manhã, a dona da casa foi orientar sobre o café da manhã, ainda de pijama. Cara sonolenta. O uso da cafeteira é assim, o fogão desse jeito, o leite aqui, frutas acolá, a geladeira, utensílios sobre o buffet, pães, bolo e o que mais era oferecido.
         ― Desculpe ter te acordado tão cedo. ― Eram oito da manhã, ― mas não sabíamos como funcionava o café. ― a mãe uruguaia disse educadamente.
            ― Sem problema. Ontem não expliquei. Vou aproveitar e tomar café também.
            Sentaram-se à mesa.
            ― Não entendi bem como vocês não conseguiram vaga no hotel. Principalmente porque a porcentagem de hóspedes argentinos caiu muito na cidade.
            ― Não avisamos o hotel com antecedência e quando vimos estava lotado.
          ― Que ótima notícia para o pessoal do hotel, deve estar bem satisfeito. E por lá, o que estão achando do Macri?
            A mulher respondeu o que é de conhecimento de todos, a Argentina está na bancarrota, um presidente que favorece a elite. Pobreza e miseráveis em ascensão. Hum real equivalente a onze pesos.
            ― Não acredito. Quem iria imaginar o real se sobrepor ao peso nesse nível. Lembro o auge da Argentina, orgulhosa de sua ascendência europeia, agora nessa miséria. No Brasil não está diferente, muito desemprego.
            Fechada primeira diária. Despediram-se e foram à praia. Chegaram à tarde, quiseram café e chá, com bolo. Está delicioso.
A anfitriã explicou que normalmente apenas o café da manhã estava incluído na diária. A mulher pareceu não gostar da observação:
            ― Eu pago o café extra, não tem problema algum.
            À noite, a mulher saiu com amigos e a filha ficou na casa, se não teria problema. Nenhum. A moça, vinte e dois anos, ficou a tarde inteira e a noite à mesa de refeições e se mostrou completamente ambientada, respondendo e também perguntando, e comendo, e muito tranquila. A mãe tinha cinquenta e seis anos, dentista, o irmão também, trabalhavam juntos, e ela também estudava odonto. E explicava que não gostavam de alimentos muito doces, e acharam os hábitos da casa saudáveis. E bolos deliciosos. O de amanhã, essa broa de fubá, como está bonita, e que formato perfeito, só de olhar, agrada.
            A mulher retornou. O amigo a trouxe de carona. Aproximou-se da mesa:
            ― Minha filha deu trabalho?
           ― Ela é tranquila. E agora entendemos por que vocês não gostam de doces, você é dentista. ― falou a dona da casa e percebeu um risinho indecifrável na mulher.
            Cumprimentaram-se e foram para o quarto.
            O marido pela manhã:
        ― Acorda que deu zebra, a mulher está alegando que foi roubada, que sumiu dinheiro, passagem, tudo desapareceu. ― no fechamento da segunda diária, aquele alvoroço. A esposa acordou abrupta e foi ao quarto. Bateu. A mulher abriu a porta já aos gritos.
            ― Fui roubada, alguém entrou no quarto, desapareceram materiais de odonto que eu tinha comprado, material caro, sumiu dinheiro, passagem aérea, bem que eu não queria me hospedar em casa de família, tirei fotos ontem à tarde, você entrou de manhã para a limpeza do quarto com outra chave, por isso tirei as fotos à tarde e na foto tem o lençol da cama, as malas tinham cadeado, mas a noite minha filha não quis trancar, deu nisso, ela insistiu em vir para cá, por isso bato muito nela, ― e exigia todo dinheiro de volta, que iria denunciar, naquela casa tinha ladrão, e ao mesmo tempo, socava a filha, dava tapas desconexos, ― para você aprender a não dar palpite, por que fui te escutar, já bati muito nela, a coxa está roxa, mostra para ela ― a filha mostrava a perna.
            A anfitriã acompanhou com os olhos a confusão do espaço caseiro. Cama desarrumada com sapatos em cima e badulaques espalhados, a mulher aos berros, em descontrole, como se tomada pelo demônio.
Manteve controle sobre o teatro armado, escutou a mulher até que os ânimos se esgotaram e depois, defendendo-se, informou que em hipótese nenhuma devolveria as diárias utilizadas, poderia sim, devolver a terceira diária não utilizada, como faria com qualquer hóspede. E que a polícia já tinha sido acionada. Devolveu o dinheiro. Pediu para ver a foto e a mulher, nervosa, mostro apenas a polícia. Que seja. Fechou a porta. Os filhos ficaram atentos até chegada dos policiais. A anfitriã retornou ao seu quarto, trocou de roupa, lavou o rosto, e foi avisada que os policiais chegaram. O marido foi atendê-los.
        Todos se encaminharam para fora de casa, inclusive a mãe uruguaia e a filha argentina, carregando as bagagens e dizendo:
            ― Não quero ficar um minuto a mais nesta casa. Vou para um hotel que me sinta protegida, senhor policial tem algum que possa me indicar.
            ― Antes a senhora terá que responder algumas perguntas, pois fomos chamados para uma ocorrência.
            ― Eu estudei muitos anos em Santa Maria, fiz aperfeiçoamento. ― De repente, a mulher falava idioma bem próximo ao português, compreendendo perfeitamente as solicitações. ― Sumiram materiais profissionais.
            ― Somente isso desapareceu? Inquiriu o policial.
            ― Somente. ― Confirmou a mulher.
           ― Ela me disse que tinha desaparecido dinheiro e passagem aérea também, ― falou a dona da casa.
          ― Agora vamos fazer as perguntas para ela. Depois será a vez dos donos da casa, ― o policial.
            ― Ela alegou que tirou fotos e aparecia o lençol e também não devolveu a chave da casa. ― insistiu a anfitriã.
            ― A senhora pode mostrar a foto? ― o policial intimou.
            ― Pensei que estava no meu celular. Acho que está no de minha filha. Vou falar com ela. ― Foi até a moça, conversaram, e retornou ― ela diz que apagou, não queria confusão. Vou chamar Uber, quero sair daqui o mais rápido possível. Quais meus direitos?
            ― A senhora pode fazer denúncia se tiver como provar. Tem contrato? ― falou o policial.
            ― Não. Eu sei que as coisas estão difíceis por aqui e na Argentina, eu entendo. ― A mulher estava amansada, mas aflita para ir para um hotel. ― O senhor não conhece uma boa pousada ou algum hotel de qualidade, onde se possa ficar bem instalada? A uruguaia repetia.
            ― Por que não vai para a casa do seu amigo. ― A anfitriã atrevida.
            ― Não quero amolar. Ele tem as obrigações. Mas a casa dele está disponível, se eu quisesse. ― A uruguaia falou ríspida. O Uber chegou.
            ― Ela não devolveu a chave. ― marcou a anfitriã.
            ― A senhora devolva a chave. ― Disse o policial. ― Mãe e filha passaram a revirar roupas a procura.
            ― A senhora não poderá ir enquanto não devolver. Assine a ocorrência, falou o policial.
            Finalmente, foram-se. Os policiais também.
            As visitas deixaram rastros. Foi uma manhã estressante e incomum. À tarde, a anfitriã foi ao hotel:
            ― Sabe informar se o hotel estava lotado na quarta-feira passada?
            ― Estávamos com muitas vagas, somente hoje está mais cheio, com oitenta por cento da capacidade. ― confirmou o recepcionista.
            Chegando em casa, perguntou ao filho:
            ― A moça deu em cima de você?
            ― Deu, mas eu estava com pensamento longe. Não colou. Além do que, você já tinha exigido profissionalismo.
            A anfitriã passou a tarde pensativa. Depois disse à família:
            ― Elas tiveram dois dias de paz e aconchego, livres de angústia e bem alimentadas. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

PINTURA DE FLORES NÃO ENVELHECE, GENTE SIM!

Flores - Pintura Ju Chagas
   Logo no início do ano, recebi um vídeo de Como Envelhecer. O vídeo traz a palestra de uma geriatra e gerontóloga. São quase cinquenta minutos onde a médica pretende mostrar como envelhecer: na marra, isto é, sem levar em conta os cuidados com saúde, e de outro lado, no cuidado de si a partir de ótimas dicas.

   Então, as reflexões sobre o que fazer com a vida, adiando ou não, decisões, necessidades e atitudes, foram bem vindas. O vídeo, como pano de fundo, facilitou a leitura crítica do que de errado se continua a realizar e o que repensar, pois que velhice chega rápida. E segundo a geriatra, o Brasil será o país que envelhecerá mais rapidamente. E a constatação pior, o Brasil não se prepara a tal, ainda, nada de políticas públicas para essa faixa etária, o que nos espera é um futuro sombrio, com muitas carências no enfrentamento de momento tão delicado para o indivíduo e a família.

   Aliás, na minha idade de senhora, estou vivenciando como a idade traz surpresas, às vezes, bem desagradáveis. O risco é continuar vivendo e continuar aprendendo a jogar. Enfim, prestei atenção a cada palavra, cada intenção de orientação e começando 2019 atenta a tais perspectivas.

   Para aqueles interessados, eis o link da palestra: https://www.youtube.com/watch?v=zcj5DVTciIw

   Como profissional da área de Psicologia somente não gostei da menção generalizada de que os profissionais da área deixam a desejar. Já que, conhecemos, também, médicos que andam pelo mesmo caminho.

   Depois de destrinchar como o vídeo me influenciou, fico feliz de me saber correndo atrás de desafios e projetos. O próximo será um intercâmbio no idioma inglês, com elaboração de roteiro visando explorar ao máximo a experimentação de novas situações e conhecimento de novas pessoas. Ampliando, assim esperamos, novas sinapses e adiamento de doenças degenerativas neurológicas.

   O importante agora é o tempo me obedecer e aaaandar bemmmm devagariririnho. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

IDADE DE SENHORA III

IDADE DE SENHORA III 
15/01/2019

   Retornei ao ortopedista, desta vez o marido acompanhou até a sala de consulta. O médico, cuidadoso, fez um apanhado dos dados e disse:

   ― Ah, estou vendo aqui a sua data de nascimento, 1966.

   ― Engano seu, é 1956.

   ― Todos os meus pacientes ganham de brinde dez anos a partir do momento que entram por esta porta.

   ― Cada vez que venho aqui, eu me surpreendo!

   ― Isso é um estímulo aos que buscam o cuidado e a prevenção, algo muito importante para preservar os ... trinta e sete anos, não é?

   ― Daqui a pouco será.

   ― Então vamos cuidar para que chegue bem.

   ― O corpo fala e a gente procura ajuda, não é, doutor?

   ― Não podemos esperar o corpo falar, pode ser tarde demais. Precisamos agir antes que ele nos diga qualquer coisa. ― E seguiu na análise dos exames.

   ― Vamos ver aqui: realmente um dos discos quebrou. Não tem mais jeito. Demorou em buscar ajuda, e mais o tempo com exames e retorno, lá se vão mais de quatro meses, o que tinha de acontecer, já aconteceu, nada se pode fazer. Quando um disco da coluna vertebral se quebra é semelhante ao que acontece quando a gente amassa um tomate: o tomate pode amassar bastante, mas não respingar. Ou pode ser que o tomate amasse até o final, e espalhe resíduo para todo lado. No seu caso, o tomate amassou, mas não esparramou. Complicado seria se o trauma esmigalhasse pedacinhos de ossos e atingisse a medula espinhal.

   ― Então posso começar com exercício físico? Terei sessões de fisioterapia? Pode musculação?

   ― Calma, calma. Vamos devagar. A senhora não pode fazer nada que sinta dores. Fazer exercício físico e sentir dor, é ruim. Fazer um exercício que gosta e sentir dor, é ruim também. Fazer um exercício que é bom, mas não gosta, e sentir dor, também é ruim. Enfim, tudo que faça sentir dor, é ruim. E deve ser evitado. Os exercícios têm que ser feitos com cautela. Comece devagar até as dores passarem e depois com exercícios que exijam um pouco mais. Pilates é o indicado.

   ― Então vai prescrever fisio?

   ― Precisará do pedido para iniciar as sessões. Mesmo eu prescrevendo aqui o que tem de ser feito, saiba que um fisioterapeuta vai querer mudar e fazer diferente. É uma situação comum de acontecer.

   ― Depois poderei fazer musculação?

   ― Estou preocupado com o que diz aqui, ― leu o diagnóstico ― olhe... a senhora está com hipotrofia da musculatura. Isso é muito preocupante, já que os músculos são o que sustentam a coluna. Se estão flácidos, isso é um dos dificultadores. Se quer fazer musculação, exercícios para as coxas, panturrilhas, e braços até pode, mas não pode levantar peso de forma alguma. O sinal sempre deve ser: sentiu dor, não pode. Prefira o pilates, no andar da carruagem, é o melhor.

   ― E alongamento?

   ― O sinal é: sentiu dor, para. Tanto a senhora, quanto o marido têm de estar bem. A senhora deve se cuidar, para cuidar dele. Ele precisa se cuidar, para cuidar da senhora. Os dois se cuidando, poderão cuidar um do outro com qualidade de vida. 
   
   Continuou:

   ― Vou pedir exames para acompanharmos o cálcio, vitamina D etc. Está comprovado, a falta de vitamina D pode causar diversos problemas... e especificou todos. É muito importante acompanhar no período entre a primavera e o outono. Quando chegar o inverno vai estar com reservas. 

   E finalizou:

   ― Creio que devemos nos acautelar para evitar osteoporose. Muito pior quando se descobre após um tombo. Até mais, e nada de ficar sentada muito tempo, deitada muito tempo, deitar de bruços e de barriga para cima está proibido. O cuidado começa desde agora para curtir os trinta e sete. E o senhor quantos anos têm?

   ― Trinta e três. ― disse o marido.