terça-feira, 28 de maio de 2019

DANÇAR A DANÇA

Artesanato mineiro em garrafa PET
   O mês de maio está se manifestando um mês difícil em inspiração. Resolvido que o projeto viagem de investimento no idioma inglês chegou no momento decisivo. Este pequeno projeto tem tomado toda a energia, por que além de roteiros, tem-se que planejar uma viagem tipo mochileira, em plenos trinta e sete anos kkk. Pois é, não dá para tardar muito quando se chega aos trinta e sete, mesmo a grana sendo curta. E cheguei. O ânimo parece de adolescente, mas o corpo já não obedece, teimosamente os sessenta e três vão deixando sequelas, umas aqui, outras ali, kkkk somente rindo mesmo é que se vai atrevendo.

   Claro que não é nada diferenciado. Quantas mulheres e até com mais idade já estão fazendo isso. Vivendo uma viagem de intercâmbio depois que os filhos estão crescidos. Mas vou dizer uma coisa: estou morrendo de medo kkk e a ansiedade vem boicotando a minha já difícil inspiração amadorística kkk. E como não poderia em hipótese alguma entregar os pontos e deixar maio em branco, decidi me confessar através da escrita.

   Quando acontecer de verdade,  o momento X decisivo, talvez eu possa expor a experiência, talvez eu consiga sair desse instante paralisante e dar o testemunho de que viver os trinta e sete, de que forma for, com aventura ou sem aventura, é sim um verdadeiro casamento, digno do mês das noivas, e de branco não restará nem páginas.

   See you later!  

quarta-feira, 1 de maio de 2019

GÊNESIS TECNOLÓGICO

GÊNESIS TECNOLÓGICO
            30/04/2019
À medida que lia a mensagem no whatsapp o coração acelerava. Quando terminou a leitura lágrimas emergiram. Não conversava com ninguém. Ninguém estava à sua frente. Eram apenas mensagens de um ser tecnológico, o celular, que reproduzia palavra e linguagem ao toque do teclado. E sofria ao ler? 
Do outro lado a pessoa que enviara a mensagem, esta sim de carne e osso, mas o celular, aparelho sem sentimento, sem emoção, sem pingo de sensibilidade e humanidade.
            Chorou durante algum tempo. Há tanto tempo não chorava. Não que achasse incorreto fazê-lo, mas com qual objetivo? Limpeza dos olhos, limpeza da angústia, ou satisfação pelo derramamento? Na verdade definiu que a pressão interior estava intensa. Talvez lágrimas depressivas, talvez lágrimas de tristeza, talvez lágrimas de alegria. 
           Quisera estar lá enquanto a mensagem se processava. Imaginava.
            Imaginou Mafalda frente ao computador. 
            Novos tempos, onde a máquina vem substituindo pessoas, convivência. Oito horas de trabalho frente à luz fria que lhe rebatia nos olhos. Aceitou o trabalho nas condições impostas: contrato, sem direitos trabalhistas, necessidade de torna-se Mafalda, ela própria a própria empresária e trabalhadora, salário abaixo do de mercado. O celular indicava mensagens ativas, não poderia verificar mensagens pessoais no período de trabalho, apenas aquelas destinadas à solução do problema empresarial. No intervalo para descanso, Mafalda leu a mensagem da mãe.
            Mãe: Não sei se poderei viajar, dependerá do que está se desenvolvendo neste momento, sua irmã não anda nada bem, seu pai fazendo exames. Não comentei com ninguém a intenção de viajar, e dependendo do desfechar, talvez deva cancelar.
            Durante a tarde a mãe distraíra-se com atividades. Até esquecera que enviara a dúvida para a filha, tão preocupada com preparativos que lhe infernizavam a mente: fazer isso, deixar aquilo, prazo de pagamento, não esquecer o IR, o que levar, como levar, como contar, qual momento, como receberão a notícia, enfim, deixar tudo organizado para que gerissem o que era sua responsabilidade.
            Olhou o celular, nova gênese que se imiscuiu entre nós, entre todo mundo, em mim, na mãe, em Mafalda, trazendo consequências tão nefastas, e por outro lado dando oportunidade de comunicar-se com quem está à distância. A mãe colocou a senha pessoal para entrar no mundo virtual. O mundo frio, de técnicas algorítmicas que resultam em informação onde quer que as pessoas estejam. A mãe entrou, e on line, inicialmente fria também, objetiva, ler mensagens, tantos grupos, tantos aplicativos, tantas manobras para alcançar a alma humana e ao mesmo tempo se distanciar dela. Em seguida, a mãe abriu o whatsapp da filha.
            Filha: Mãe, você vai fazer a viagem sim. Para de se preocupar com todo mundo, afinal você tem o direito de pensar em si mesma. As pessoas não são suas dependentes a vida inteira. Não se atreva a cancelar a viagem que planeja a tanto tempo.
            A mãe ficou imaginando a filha escrevendo cada palavra, e demonstrando ansiedade na busca das letras na rapidez do século XXI. Lágrimas e soluços, chegara ao fim da mensagem sensibilizada.
            Percebera, tivera a impressão de que agora ocorria o inverso, ela era a filha. A filha, a mãe.

terça-feira, 30 de abril de 2019

O QUE QUEREM AS MULHERES?


23/04/2019
           Léa tem quatro filhos, meninos entre três e dez anos. O marido, Paulo, chegou à sala, fazendo a última arrumação no terno:
            ― Estou atrasado para o trabalho e hoje teremos reunião com clientes. ― Mal e mal engoliu o café da manhã. Paulo mal percebeu Léa, apesar de ter passado por ela esbaforido. Às crianças sequer dirigiu palavra de bom dia. Léa, hoje, prestou atenção. Ela tentava apaziguar as crianças que não a ouviam, com os cabelos pretos desarrumados, suada, cansada, com roupa caseira.
            Paulo chegou ao escritório e viu Nina, sua chefe, conversando com Lia, uma das funcionárias:
            ― Olho no espelho e me vejo envelhecendo, as roupas clássicas de que gosto, já não me caem bem, me transformam numa velha ultrapassada. E ainda tendo de lidar com o novo momento de minha filha de dezesseis anos pensando em namoro firme, querendo que eu conheça o rapaz. Não estou preparada.
            ― Você está com inveja e ciúme de sua filha? ― perguntou Lia.
Lia tinha seus problemas. Namorava Caio, homem casado e a esposa dele, Jane, acabara por descobrir o caso. Jane, revoltada ao pegá-los em flagrante, informou o fim do casamento, mas que, o filho e a filha adolescentes ficariam com eles, semana sim, semana não, pois agora a amante sentiria na pele o que é ser esposa.
Jane, mulher tradicional, leal e fiel, conhecia o prazer feminino. Sara, sua colega de trabalho que criticara os chifres, não conhecia tal prazer. Jane ao saber da fofoca espalhada no grupo de trabalho, num momento de raiva, contou o segredo de Sara, que saiu envergonhada e chorosa.
            Lia, amante de Caio, tinha uma amiga em comum, Meire, da qual era confidente. Meire era desajeitada com os homens, não sabia chegar, como se portar, o que falar durante um encontro, e quando dizia algo, os homens se retraiam até escapulir. Será que vou ficar sozinha? Lia orientou-a. E Meire encontrou João. Ambos advogados, estavam trabalhando no caso de uma mulher que matou o marido. Meire considerou que a mulher agiu em defesa da honra e protegendo a filha de um estupro. Eis o argumento que sustentaria no tribunal. João envolveu-se com Meire e ambos se descobriram na intimidade e se gostaram. 'O amor despenteia os cabelos e desarruma as gavetas.'
            Enquanto Paulo caminhava até sua sala, Nina, levantou o olhar:
            ― Daqui a pouco os clientes estarão aqui. Tudo preparado, Paulo?
            Uma das clientes era a Susi, mulher bem sucedida. Preocupada com sucesso, poder e voltada apenas para objetivos empresariais. Naquele momento, ditava à secretária, Melina, a correspondência. Melina, tímida e desconcertada, obedecia sob olhares exigentes. Susi fez uma pausa e perguntou à Melina:
            ― Você tem amiga? ― A moça negou com a cabeça.
            ― O médico insinuou que meu desejo por sucesso desenfreado está elevando a testosterona, o hormônio masculino, e que nem pareço mulher. Ele deu a entender que nem devo ter amigas. Isso não é verdade. Claro que não é! Vou provar a ele que não tem a ver. Vamos nos encontrar amanhã para conversar? como uma reunião de amigas, como se você fosse minha amiga? quem sabe tem uma amiga e queira levar? Isso, você leva sua amiga, combinado? na hora e local que eu lhe disse, ― Susi emendou autoritária.
            Melina somente escutou. Ao sair do escritório, Melina presenciou Leona colidindo de testa no poste e caindo para trás. Melina socorreu-a e foram para o hospital.
Leona era motorista de ônibus. Depois de medicada, contou a Melina, meio a trejeitos da face, tiques nervosos que apareciam quando gesticulava o rosto, que o marido era tradicional, e ela julgava o sexo tão normal, tão trivial, e ontem tentou ser diferente.  Preparou a cena para o sexo selvagem que imaginara, mas ao fechar a porta com força atingiu a cara do marido. Com nariz sangrando, ele saiu irritado dizendo que iria embora para a casa da mãe, pois não estava preparado para aquele tipo de vida, ele desejava uma mulher comum. Melina escutou.
Noutro dia ao tomar o ônibus, a motorista era Leona. Leona lembrou-se de Melina assim que abriu a porta do veículo. O que poderia fazer por você? Qualquer coisa, poderia pedir. Melina lembrou-se que deveria levar alguém no encontro com Susi, sua chefe, e como não tinha amiga, perguntou se Leona a ajudaria. Claro, estarei lá. Após o trabalho, Leona passeava de bicicleta, com delicado vestido tomara que caia florido. Ao parar no sinal de trânsito, virou-se para o lado direito, e um ciclista imaginou, por causa dos tiques, que lhe sorrira. Ele gostou de Leona e seguiu-a até um parque. Um encontro inusitado e maluco. Olhares curiosos somente viam ramagens balançando.
            Enquanto isso em casa de Léa, a campainha tocou. Ana, a babá contratada via fone de serviços para ficar com as crianças. Ao ver a babá, Paulo, o marido, engoliu a seco e Léa após observar a moça, retorna o olhar a ele, observando suas reações. A moça, loura, rosto expressivo e sedutora numa minissaia, aparentava ter a mesma idade que ela.
            Ana percebeu o desconforto. Paulo se retirou da sala e a moça disse: ― Vocês vão se divertir. Você é jovem e bonita, quantos anos têm? ― colocando a mão na cintura de Léa de modo provocador, ― bela cintura, deveria estar bem marcada. ― Léa respondeu, vinte e sete, surpreendendo-se. Logo Paulo retornou à sala, perguntando se estava pronta.
            ― Vou colocar um cinto.
            Na manhã do outro dia, Léa pediu ao marido que cuidasse das crianças. Não escutou as desculpas de Paulo e saiu. Encontrou-se com Ana. Logo que a viu, beijou-a num impulso e foram para um quarto de hotel.  Continuaram a se encontrar e Léa sempre pedindo ao marido que ficasse com as crianças. Léa envolveu-se de tal maneira que disse para Ana que largaria o marido. Ana, num tom forte, respondeu que não estava acostumada com rotina, achava o cotidiano chato e chegaria o momento em que estaria saturada da relação e dos filhos barulhentos de Léa. E, ainda, completou, eu sou assim, não me dou com compromissos. Léa ficou desnorteada. A vez em que Paulo seguiu-a, viu as duas conversando numa praça, aos sussurros. De volta à casa, Paulo já estava lá e disse-lhe ter descoberto que Ana a estava ajudando a se encontrar com o amante. Léa deixou o marido falando sozinho e foi para o quarto.
Paulo passou a prestar atenção na mulher ao descobrir que a perdia. Convidou-a então para sair. Contratou outra babá, organizou tudo, Léa ficou admirada dele tomar a iniciativa pela primeira vez.
            Ao chegarem à cerimônia, Paulo subiu ao púlpito e fez a homenagem surpresa pelo aniversário da esposa, declarando seu amor. 'Uma palavra e tudo está salvo. Uma palavra e tudo está perdido.' Paulo caminhou até Léa e beijou-lhe.
A música começou. Léa foi dançar com Paulo.
Ana, estava lá, de flerte com uma jovem, nem via Léa mais.
Nina conversava com Lia sobre o tempo, sobre a filha, sobre o sentimento de competição com sua menina-moça. Decidida que iria trocar as roupas por peças cleans e joviais.
Lia estava distante, exausta de lidar com os filhos de Caio, que agora moravam com ela semana sim, outra não. Nina perguntou, que houve Lia, e sua paixão? Lia respondeu que iria mandar Caio para o inferno junto com os filhos.
Jane e Sara participavam de outro grupo feminino. Até que Sara aproximou-se de Jane e pediu-lhe desculpas. Jane explicou então que o ocorrido fez que largasse a vida monótona de dona de casa e deixasse de ser passiva. Sara, por sua vez, disse que nunca sentira orgasmo e nem sentia necessidade, estava bem daquele jeito.
Meire dançava com João, apaixonados, beijavam-se.
Susi conversava com Melina. Pela primeira vez, Susi se interessara por ela e perguntara-lhe se tinha mãe. Melina contou que a mãe estava presa por ter matado o pai, e amava demais a mãe que a protegera. 
Leona por sua vez, se empolgava na festa, dançando em grupo com outras mulheres e descobrindo que não queria aceitar a proposta de casamento do ciclista, queria ter experiências com outros homens, não somente com um. Enquanto falava, as amigas notaram que os tiques de Leona desapareciam.
            Eis o conto que bolei a partir do filme da diretora francesa, Audrey Dana, O que querem as mulheres.
A película fez refletir. Lembrei as citações de Freud: "A maioria das pessoas não quer realmente a liberdade, pois liberdade envolve responsabilidade, e a maioria das pessoas tem medo de responsabilidade."; " Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais; somos também, o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos... sem querer."; "O homem é dono do que cala e escravo do que fala."; "O caráter de um homem é formado pelas pessoas com quem escolheu conviver."; " Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: o que uma mulher quer?" 

'De longe tudo é igual, já dizia alguém.' Quando a câmera se aproxima...


'  ' ― citações do escritor Ronald Claver.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

NINGUÉM NASCE MULHER, TORNA-SE MULHER



NINGUÉM NASCE MULHER, TORNA-SE MULHER
09/04/2019
            “Amar é ter um pássaro pousado nos dedos”. Rubem Alves, um de seus poetas preferidos. Desta vez discordaria dele. Pelo menos do restante da frase “... a qualquer momento ele pode voar”. Ele pensava em Fatinha. A namorada romântica, iludida com suas frases de efeito. Lia Manoel de Barros, lia Bandeira, Quintana, tantos outros. Repetia habilmente poemas irmanados de lirismo. Mas o seu dizer, palavras soavam falso. Homens assim também usam poesia. Assim enjaulava as vítimas. Fatinha, doce e ingênua, se derretia vendo-o declamar versos, estrofes, poemas inteiros e ele vaticinado, a certeza de ter conquistado a presa. Fatinha, o bicho domesticado, criada em redoma no interior do estado. O namorado endeusado pela mocinha de coração generoso. Fatinha cumpria à risca o papel de boa moça respeitosa das convenções e Vogel, ela acreditava, pássaro autêntico.
            Vogel caminhava firme, na certeza de dar o golpe certeiro, devagar, a conta gotas. O rei do gado, pai de Fatinha, o considerava bom partido para a filha. Vogel vinha dos lados de Mato Grosso e o sobrenome que furtara dava conhecimento de família oligárquica dominadora de terras locais, oriundas de antigas grilagens, terras públicas, terra de São José, que caia nas mãos de espertos. O rei do gado assim também fizera, amealhando aqui e ali pedaços de terras devolutas e outras de pequenos agricultores que, se ousassem questionar, tinham a família eliminada a bala, obrigados a deixar a terra. As mulheres não se metiam nesses assuntos, predestinada a elas a herança e não a palavra. Mudas, opacas, sem cor, amarelecidas, mulher objeto de uso e enfeite. Fatinha desconhecida desses temas, ouvia apenas o coração. Aceitou tornar-se a mulher que ele sonhara, soprou ele no seu ouvido.
            O casório teceu a contos de fadas, bordado por Fatinha e corroborado pela mãe e pelo pai, que faziam sim, os gostos da filha. Fatinha nos ares, em voos fantasiosos com o deus Cupido, o deus do seu coração estava prestes a ter o corpo virgem e franzino.
            No famoso hotel, Vogel abriu a porta do aposento, Fatinha entrou sem a pompa habitual. Ela sonhara que ele a carregaria nas asas. Vogel, assim que trancou a porta do quarto, puxou-lhe pelos cabelos e a ira traduziu suas palavras:
            ― Nem um pio ou arrebento essa carinha de bonequinha do papai. ― em seguida, rasgou-lhe o vestido. Fatinha, olhar apavorado, antes de abrir a boca, ganhou uma bofetada. ― cala a boca!
            Jogou-a na cama, retirando a roupa à força, rasgou-lhe a calcinha, introduziu o membro ereto sem o ritual sonhado pela moça. No grito vermelho, Fatinha viu o demônio sobrevoando em cima de si e desmaiou. Ficou grávida nesse dia. Ele não mais se interessou pela presa, casou-se com direito aos bens, isso que importava. Grávida, Fatinha saiu de casa, tornou-se mulher. Dona do próprio nariz, estudou, formou-se, conseguiu emprego, sustentava o lar. Vogel destituiu-lhe a fantasia e o estrago emocional tratado em consultório psicoterápico por longos anos. Desconfiada, disfarçava a perda imaculada com sorrisos e brincadeiras no ambiente de trabalho.

domingo, 24 de março de 2019

IDADE DE SENHORA V

IDADE DE SENHORA V
03/03/2019

  Cheguei à consulta com o fisioterapeuta responsável pelo método Musculação Terapêutica. Fui entrando e ele me dizendo que faríamos avaliação inicial, fundamental para definiação das estratégias. Mal escutei o que me dissera, olhava fixo para seus pés, pois pareciam pés de pato.

   ― Que tênis interessante, ainda não tinha visto igual. ― Falei.

   
   ― Também acho, e muito confortáveis, calçando cada dedo separadamente, os Five Fingers. A empresa que lançou-os é artesanal, não tem condições para grandes demandas. Acabou que grandes marcas passaram a fabricar com nomes diferentes, são os novos tempos.

   ― O mercado é agressivo, compreendo perfeitamente. Não vi nas lojas.


   ― Pela Internet você encontrará marcas à escolha. A gente se sente descalço. Não troco por outro modelo, disse o profissional, retomando o tema principal, ― vamos ao exame.

   
   Relatei o tombo, a quebra do disco vertebral, a questão da osteoporose, a exigência de exercícios físicos enquanto viver, o gostar de musculação. E ainda, mencionei que o médico tinha dito que o disco quebrou devido músculos flácidos. Expliquei que nunca deixei de exercitar a região abdominal e pernas desde a juventude, apenas outros exercícios eu estava relapsa. Ele complementou:

   ― Talvez por isso o trauma não foi pior. Se não se exercitasse de forma alguma, a fratura poderia ser mais intensa. Isso a protegeu. Este pode ser o outro lado.


   ― Não tinha pensado por esse ângulo.


   ― Pois é, devemos olhar por diversos ângulos. Vamos aos exercícios. Exercício de força com mãos, pernas, controle dos tendões... Esse aplicativo/programa foi criado por Dr Spa.


   ― Esse nome me soou familiar, devo ter visto na rede.


   ― Faço pouco marketing, minha preocupação é a saúde.


   ― Quando vou saber o resultado?


   ― A secretária entrará em contado com a senhora. ― Ele se despediu e em seguida, entrou a próxima cliente.

domingo, 17 de março de 2019

O GATO

O GATO
07/12/2018
            Levantou cedo. Abriu a porta do quarto que dava acesso à varanda no primeiro andar. Manhã nublosa. Buscou caderno e caneta. As árvores no lugar. A primeira árvore, a buganvília entre telhados, mareava seus olhos de vermelho intenso, quase um tom vinho tinto. A segunda árvore, toda alaranjada em tom forte, vibrava mais à frente. Árvore que povoou a infância, jogando ao chão botões e quando se pisava neles, espirravam longe o líquido – “Xixi de gato”. Ao lado uma linda palmeira. A terceira árvore, um ipê amarelo sem floração. Os ipês daqui, do Sul, não florescem com a intensidade dos da terra natal. Além do que, o ipê está dominado por ramas de maracujá.
            Enquanto escrevia, sentada na cama, um pintassilgo cantava sem parar. Escutava sons de outros pássaros, a passarinhada entoava o canto da manhã.
            A quarta árvore que lhe chamara atenção, estava bem verdinha. Na época de florada emoldurava-se, cacheada de flores amarelas em pendão, tão magníficas que ofuscavam. E pensar que pedira ao jardineiro que a cortasse, pois desconhecia o pendão, devido à sombra na horta. O jardineiro não a escutara.
            Olhou ao fundo um tronco dessa árvore. Viu um gato. Um gato preto descansando. Olhava fixamente e ainda o gato. Olhar luminoso, olhos que brilhavam em sua direção. Espiavam. Insistentemente. O gato descansava e observava a obsessão da mulher a sequentes perguntas: será mesmo um gato? será imaginação? Abriu mais os olhos, olhos míopes, e a imagem de gato permanecia. Não quis buscar os óculos. Um gato preto de olhos amendoados de paralisar.
            Enquanto persistia olhar, pensamentos divagavam. Estava tão difícil a aceitação. Por mais que refletisse não conseguia assimilar o ódio. Ódio que distanciava a convivência. Pessoas escolheram algo cujos valores e princípios diferiam dos coerentes.
            O ódio. O gato olhava com assombro. Como se visse o fundo, o fundo oco da mulher. Um ódio do dia seguinte. Que persistia. Iria embora? Não sabia o que era ódio. A não ser quando criança, depois de boa surra da mãe. Desenvolveu depois de velha?
           O gato olhava fixo. Não se mexia. Não se movia. Apenas observava com olhares inquisidores. Até que ela percebera, o gato não era um gato, e sim um pedaço do tronco.
Mas que importava. Ela via o gato!

sábado, 16 de março de 2019

ACTUM SANCTUM I


ACTUM SANCTUM I
11/03/2019
Encontrou a filha no corredor superior. Antes de descer a escadaria comentou:
― Cheguei à conclusão que estou em processo de Alzheimer.
― Por quê?
― Tenho esquecido as coisas com muita frequência, coisas mínimas que começo a fazer, me distraio com outras e quando me lembro, é somente muito depois. ― E continuou, ― Ouvi falar que tem algumas coisas que os doentes vão deixando de fazer, por exemplo, fazer amor, ter relação sexual. Não sinto falta.
― Ah, mas isso eu concordo. Quando tiver essa idade acho que também não terei vontade. A pessoa deve ficar cansada.
― O pior mesmo é perder a autonomia, isso é triste, saber que vocês decidirão sobre a minha vida. ― Disse a mãe, enquanto descia os degraus e parou na metade ao ouvir a filha:
― Procure fazer coisas diferentes.
― Eu vivo procurando e fazendo. Idiomas, ... ― foi relatando as atividades extras. ― Tem jeito não, o que tiver de ser, será!
Chegou à cozinha. Lembrou-se de que tinha colocado as embalagens de carne sobre a pia, para separar em pequenas quantidades e guardar no freezer, isso há uma hora. A carne já não estava lá, sobre a pia. Abriu o freezer e as carnes separadas e acondicionadas, como ela sempre fizera. Dessa vez não foi ela. Pensou: “Que bom, fizeram o trabalho, aprenderam.”
Preparou algo rápido para seu jantar. De tempos para cá, não se preocupava em arrumar refeição para mais ninguém. Todos crescidos e o marido preparava a própria, apenas salada leve. Ela agora entendia o significado de conversa recente com ele:
― Sabe, estranho o que está acontecendo comigo. Eu não procuro vir para a cozinha e fazer o almoço, não me preocupo se tem alguém para almoçar, ou se não tem. Preparo somente a hora que me dá vontade e quem não estiver satisfeito, que faça a própria refeição.
Sentou-se à mesa, foi rasgando devagar o pão no molho branco com carne. E no pensamento, analisava os lapsos recentes: “estava desmazelada consigo mesma, a casa desleixada, já não via tanta limpeza e ela não via necessidade de limpar. Não tinha o interesse, que antes julgava até exagerado, de saber o dia a dia de cada um, de se reunir com eles à mesa, de participar das conversas familiares, de estar atenta às solicitações. Apenas permanecia em suas atividades.”
Atividades que estavam mais espaçadas, adiadas, quantas leituras por ler, quantos livros por escrever e começados, a nova história interessante e necessitando digitação para não perder o fio da meada. Nada. Nada era importante. Era como se o tempo, o tempo da fantasia, fosse ganhando espaço, e nem tinha vontade de ir para a cama. Queria ficar ali, na varanda, deitada na rede, sem objetivo nenhum, olhando a chuva e ouvindo os barulhos da noite.
Dera também para fechar a porta do quarto e por lá ficar. O marido lhe perguntou:
― Por que agora você sempre fecha a porta?
― O barulho caseiro me incomoda. Quando fecho a porta, sinto que se abre um mundo novo, sem barulho, sem confusão, sem preocupação, tudo ficou do lado de fora da porta. Assim, espero a inspiração. Eu entro aqui, esqueço obrigações, marido, filhos, cachorros, todo o tempo para uso exclusivo. Estou achando proveitosa a experiência e dando razão dos meninos gostarem das portas fechadas.
Terminou de jantar. Verificou o que faria para o almoço do dia seguinte. Fechou a porta do quarto. Queria escrever. Sentou e esperou.