quarta-feira, 7 de maio de 2025
sempre é possível mentir (CENA 54)
terça-feira, 5 de novembro de 2024
a perda em ciclos (CENA 53)
Os dias se passavam sem leveza e serenidade em Bia. Que fazer? Por onde começar? ou será recomeçar? Para além de meras questões, o substrato profundo dizia respeito à morte, à perda do companheiro, afinal Josué o fora em longa jornada, mesmo que nos últimos anos já não sentisse a proximidade de antes e a cumplicidade de casal se evaporara. De qualquer forma, era momento de luto familiar, o elo ficaria para sempre.
Dizia respeito também às mortes pelo coronavírus que naquele agosto de 2021 ainda fazia estragos traumáticos pelo Brasil. Mais de vinte e quatro mil óbitos somente em agosto.
Apenas um mês após morte de Josué. Ainda é cedo dimensionar as fases dessa perda. Bia sentia raiva, revolta pela vagareza nas atitudes governamentais que surgiam apenas sob pressão de instituições. As queixas de muitos familiares que perderam seus entes, da impotência individual e ainda o distanciamento entre as pessoas, necessário para conter a expansão do coronavírus.
A covid, tragédia social e no Brasil o negacionismo atrasava a busca rápida de solução, com gente no comando de ações sem capacitação para gerir e tomar decisões responsáveis.
Toninho, seu filho, entrou em casa e observou a mãe em sua tristeza e ainda sem ânimo para adiante. Tempo, tempo, tempo...
sexta-feira, 2 de junho de 2023
jangada não foi pro mar (CENA 52)
Era julho de 2021 e naquele local a tristeza caminhava nos rostos dos poucos presentes. Os velórios proibidos. Apenas os mais próximos e alguns poucos da família. Bia consternada, frágil, pálida, se debruçava sobre o caixote, Josué parecia sorrir. Ela parecia nem ligar mais pro vírus, estando sem máscara, chorando o pai de seu filho, o companheiro por 35 anos. Um casamento que vinha se esgaçando no cotidiano das coisas, dos problemas familiares, juntando-se aos do país desgovernado e ambicionado pelas elites que lambiam suas línguas demoníacas, se preocupando com o tilintar do mercado. Quem quer saber de povo? governo neoliberal nenhum quer se interessar por tão pouco, tão povo. As lágrimas se esgotavam enquanto ela se lamentava por esse momento que pensava não passaria.
Passou por tanta gente, na família de Dorinha, uma vizinha mais distante do povoado, quantos de seus familiares vieram a óbito. Agora a família de Bia e Toninho veneravam os últimos instantes próximos a Josué. O responsável por aquela família descansava alheio às dores de parentes e amigos pescadores. Josué pereceu, mas lutou enquanto pôde contra os sintomas do corona, até que já na UTI sentiu perder força pulmonar e desistiu de insistir.
Nos últimos seis meses, Bia e Josué andavam distanciados. Ele decidira passar um tempo fora de casa para refletir sobre aquele casamento que se perdeu na estrada da rotina. Nem retornara ao lar. Agora, Bia fora conduzida pelo corredor do hospital apinhado de gente que também lutava por viver e, às vezes, solitariamente, para evitar o contágio de familiares. Coitados e solitários, tantos. Tantos tão sofridos e sozinhos, sem nenhum aparato e trato público. Bia se recordava do caso contado pelo marido um ano antes, aquele sonho pandemônio, pesadelo de pássaros desesperados e desfalecendo. Agora ele, o pássaro alvejado em tiro certeiro num dos celeiros desse país.
Bia estava em luto. Toninho e a namorada esperavam lá fora.
quarta-feira, 29 de junho de 2022
o tempo não para (CENA 51)
Temporariamente Dodô e
Osvaldo se deixaram levar por aquele mar de lembranças que com a pandemia
parecia quebrar com força na areia, era premente lembrar, como se restaurasse a
saúde mental que andava aos cangalhos pelas más notícias de um país que se
perdeu na irresponsabilidade. A cada dia más notícias, mau direcionamento, os
estribilhos retornavam com a lenga-lenga do poder em nada resolver quando se
tratava em atender às necessidades da maioria da população. Mas no mar do Sul
com frequência o jet ski e o presidente montado, entre outros brinquedinhos
usados com dinheiro público.
Tendo chegado a mais de
quinhentas mil mortes em junho de 2021 com coronavírus e vão aumentar pela
lerdeza desse poder público de mão incompetente. Eles conversavam e a cada
pontuação, Dodô e Osvaldo traziam a ira à face, como é possível tudo estar tão
mal e a mídia tradicional concordante e até mesmo incentivando o massacre e
destruição do país, é de dar muito nojo, diziam.
― Tá na hora da gente dormir,
Valdo, o cansaço bateu com força.
― As horas voam, nem dei
por mim, a gente encarna nesses assuntos tão obcecadamente, almejando o fim. E sonhando
outubro. Essa ânsia louca de ver a normalidade de volta nos dá esperança e
força pra lutar. Vai na frente, Dodô, vou limpar a mesinha e levar os
vasilhames.
― Cruz credo, Valdo,
deixa eu te ajudar, eta homem que não sabe pedir, credo.
― Nossa, que noite
passei, Valdo, parece que dormi uma gestação, como se eu estivesse ficado
parada por nove meses. Você botou feitiço naquela canjica porque me vi
completamente entregue ao sono e sonho. Estava num cansaço, esses últimos anos
têm sido estressantes para quem tem a consciência no lugar, viu, ainda bem
fiquei descansada por aqui. Tenho de dar jeito no colchão lá de casa que está
me dando dores nos "quartos". ― Dodô confessou a Osvaldo entrando na cozinha, ele
preparava o café.
― Tive um sonho, vou te contar na hora do café. Parecia tão real.
‘Os olhos se fixaram um
no outro. Eles se identificaram em tantas coisas, na rotina da vida, nos
gostos, nos dizeres, nos prazeres simples e se envolveram naquele encontro como
se fossem há muito conhecidos. E tinham sorte. Os dois eram livres para se deixarem
levar. Começaram a se apaixonar. Não conseguiam ficar distantes, a pele os
aproximava na quentura dos desejos e o amor crescia a cada dia. Tinham a exuberância
da idade, pareciam adolescentes, eram românticos natos. Isso em meados do século
XX. O envolvimento fazia que o real lá de fora perdesse importância. A fantasia
e imaginação voavam junto aos carinhos que cresciam em intensidade e vinham tão
transparentes, sem censura, sem jogos. Era tão natural e os olhares se perdiam.
De repente os dois se assustaram enquanto se beijavam timidamente. As mães
gritavam de casa para entrar que já era noite. Ele disse baixinho, nunca fui tão
feliz assim antes. Ela viajou nas palavras a lugares infindos. Eles se despediram
com a certeza de que não conseguiriam parar aquele amor.’
― Poxa, Dodô, que pena
bati à porta te chamando pro café e interrompi o romance. Mas que auge, hem,
quem sabe continua a sonhar.
― Acredito nisso, talvez
da próxima vez que eu comer da sua canjica e dormir no aconchego do seu quarto,
quem sabe. Bom, preciso trabalhar, Valdo, a gente conversa depois, tá.
Os dois se despediram e foram cuidar da vida, vida que exige coragem.
terça-feira, 28 de setembro de 2021
o decorrer do tempo (CENA 50)
― Quer mais
canjica? ― Osvaldo perguntou, e agora era vez de Dodô andar atracada em
pensamentos aéreos, voa com certeza, disse Osvaldo em voz amena a si. A mulher
arisca, atrevida e que gostava de contar as aventuras com o marido andava longe.
Ele então tascou fogo noutro amaldiçoado
cigarro e ambos se alienaram entre cinzas e o acinzentado da fumaça. Acendeu
mais outro assim que a bituca se esvaia. Era bom estar em companhia amiga.
Lembrou-se de Luiza, do rapaz e da avoada mulher ao seu lado, Dodô. Pessoas que
faziam o tempo amenizar-se enquanto lá fora a batalha era a sobrevivência.
Alguns minutos que ganhavam tanta importância, o afago de amizades que não
imaginaria surgirem em sua vida solitária. Cada uma tinha algo especial e
admitia a si que nesse momento de tamanha atormentação para o país, essas
pessoas acrescentavam significado à sua existência. Luiza com sua doçura e ao
mesmo tempo firmeza nas decisões, uma autêntica mulher que se revelava a ele
tão terna. O toque em sua pele lhe trazia lembranças, as quais não soube de que tipo. Dodô, ao contrário, levava-o a suas viagens,
especificando cada detalhe, cada trajeto, cada decisão para obter mais
adrenalina e com ela seguia energizado e com ânsia de conhecer mais e mais
lugares fantásticos e agora estava ali aconchegada com os pezinhos no pilar da
sacada, como uma garota selvagem. Dodô trazia aspectos que libertava enquanto falava
aos cântaros. Era bom escutar. Interrompeu o pensamento e olhou para ela que
ainda ia alhures.
Então veio a figura do rapaz,
outro contador de histórias, mas de jeito jocoso nos stand-ups da vida, mostrava ironia, sarcasmo e arrebatava-o em
risadas, ah, como a juventude traz alegria aos momentos mais inusitados. Ele
fora um jovem com a timidez emperrando sua espontaneidade. O rapaz não, troçava
de qualquer simples evento. Tinha um carinho indefinido por aquele rapaz,
gostava de não dizer o seu nome, rapaz traduzia sua performance.
Estranhou seu ensimesmamento e
riu, isso não era novidade alguma. E quando virou o rosto, Dodô o observava.
― Valdo, você estava longe e
sorridente ou é impressão minha?
― Dodô, gostaria de te perguntar
a mesma coisa, porque fiquei um tempo te olhando e você navegava.
Os dois riram.
― Tenho de caçar rumo, trabalho
amanhã.
― Pra que pressa, Dodô, tem
alguém te esperando?
― Até gostaria, às vezes
sinto falta de companhia.
― Dorme aqui, tá tarde. O quarto
está arrumadinho e é só pegar toalha no armário. Vai, deixa de cerimônia, não é
trabalho nenhum. Daqui você vai para o trabalho e não precisa sair e enfrentar
a pandemia. O quarto e o apartamento em si são acolhedores, você é bem-vinda.
― Ah, Valdo, convite tentador,
bom que a gente pode continuar com um pouco mais de prosa nesse ambiente zen de
sua sacada, que delícia. Vou até pegar mais canjica depois.
Osvaldo quase deixou escapulir
que Luiza quando dormira por lá considerou isso também, não, não sei se Luiza
comentou com Dodô, pensou.
Ambos continuaram em suas
epopeias. Viagem ad interim.
quinta-feira, 12 de agosto de 2021
falar e silenciar (CENA 49)
O
aflorar de questionamentos, que anteriormente na correria do dia a dia, na
ansiedade e exigência da vida, não tinha tempo requerido para reflexão, agora, presos
em casa ou na necessidade de estar às ruas com todas as prevenções devido as variantes
que se multiplicam, anda em auge. O humano sujeitado a se ler e a se revelar em busca
de adaptação. A pandemia exacerbou angústias. Pessoas exauridas com o isolamento
imposto para sobrevivência. Escolhas se estreitando.
Os
dois amigos sentindo na pele tanta mudança e cada qual sentado em um canto,
tanto por dizer ou silenciar. Dodô olhar atento para Osvaldo aguardando resposta.
Era como se ele estivesse voltado completamente para dentro de si e esquecido
donde estava, por onde caminhava, ondeado por redemoinhos.
―
Osvaldo, aonde você está? O que diria para meu amigo escritor?
―
Hã! Oi! O quê? ― Osvaldo voltou o rosto em direção de Dodô. ― Bem... eu poderia
dar quatro respostas e existiriam outras mais. Vamos lá!
Em
se tratando de literatura, todas as possibilidades estão em aberto, a depender
de qual ponto trafega o escritor e suas intenções, se romântico, se realista,
ou surrealista, até nonsense caberia entre aspas.
De
outro lado, a idade não deveria ser argumento para aceitação do cômodo.
Enquanto houver vida, correr risco em busca do novo deveria ser a tônica. Um
novo amor, uma nova paixão, deixar o outro seguir seu destino a novas emoções,
até mesmo novo compromisso sem a seriedade de antes pode ser um ponto de
exclamação, ou até nenhum relacionamento, por que não!
Dada minha experiência com esposa em tratamento de saúde, sexo deixara de complementar amor nos últimos tempos do casamento. O corpo cansado não está à procura de orgasmo.
Nesse aspecto apelo ao prático. É possível viver sem sexo, mas sem o afeto de
um abraço, do toque que abarca tantas emoções, vejo com reticências.
E
ainda, considerando o que seu amigo acha possível, um casal sem afinidade física
mas com amor espiritual, penso que nem um amigo meu quando lhe pegam a dar
conselho e dizer ‘se eu fosse você...’ ele geralmente responde: ‘se você fosse eu,
agiria da mesma forma, porque você seria eu’. Afinal, cada casal e cada um é
único e decide o que quer da vida. E, às vezes, decide até não decidir e
deixar o tempo correr.
Quanto
às conjecturas sobre o gosto das mulheres e dos homens não deixo interrogação. Tanto
mulher quanto homem quer é ser feliz. Quer amar e ser amado. Ambos buscam a
felicidade. Não estão em lados opostos... claro, insisto, falo em nome daquele compromissado
na relação a dois. De forma que existe o hiato ― a questão do diálogo ― as
pessoas têm de falar o que sentem de verdade. Nem sempre o silenciar é provedor
de sabedoria. Às vezes é síntese de fuga. A análise de monólogo interior abarca
apenas o uno. Ponto final. Dessa vez falei demais, ― Osvaldo solta boa risada.
―
Se eu não escrevesse os itens na minha agenda, não conseguiria relembrá-los para
o meu amigo. Muito bom. O que a experiência acrescenta em nós, hein, detalhes
que eu mesma não tinha antenado. Apesar de entender que acontece do jogo
amoroso, às vezes, ser competitivo e de um não dar chance ao outro, querer ser
poder. Aí, a entrelinha da relação é o que muito se vê.
Dodô
e Osvaldo continuaram lambiscar canjica e cada um com a vista para a natureza
verde. Depois Osvaldo pigarreou, e ainda assim, lascou fogo no cigarro lamentando
o vício. Dodô pensativa se era hora de riscar estrada.
quarta-feira, 30 de junho de 2021
é isto, mas não deveria ser (CENA 48)
Estava
empolgado. Disse a si mesmo: ‘você vive de empolgação. Às vezes na acomodação.’
Olhou para o livro que aguardava leitura. Interrompeu o vídeo que começara
assistir para pegar o almoço, quatro da tarde e sem comer ainda. Riu de seus
comportamentos. A instabilidade agora tão nítida e perceptível. Apenas vivia.
Vive. As causas e consequências desse processo são os relatos de vida.
Osvaldo ouviu a campainha e saiu
do aconchego da varanda após o almoço apagando a bituca de cigarro.
― Ei, Dodô! Veio cedo com as compras. Daqui a
pouco terá descanso, daqui umas duas semanas estarei imunizado com a segunda
dose e não incomodarei mais a você, Luiza e Ritinha. ― Osvaldo ia falando
enquanto Dodô espalhava a compra perto da porta e limpava os objetos. ― Seu
chinelo está aqui. Deixa que termino, entra e vai lavar as mãos. Fiz canjica pra
nós.
Após tanto tempo de pandemia eles
já não usavam máscara quando estavam à distância segura dentro de casa com
janelas abertas.
― Valdo, eu tinha estranhado você
não fazer pedido de ingredientes pra festa junina individual como fez ano
passado. Mas o seu São João está atrasado, hoje são 30 dias de junho de 2021.
― Sabe, Dodô, os dias, semanas,
meses e pelo jeito chegará anos e essa epidemia não tem fim. Afora tantas
dores, quase 520 mil mortes, ouvi que são na realidade mais de 700 mil mortes se
tudo fosse notificado, energias instáveis por todo esse processo que a gente
vem vivenciando, assomadas às corrupções do e no governo, agora envolvendo até compras
de vacinas conforme a CPI, às exigências do povo nas ruas vêm crescendo a cada
encontro, tantas tragédias, desrespeito aos indígenas, matanças no Rio de
Janeiro, no Amazonas, em tantos outros lugares, a venda por preço de banana das
nossas últimas riquezas, esse tempo que vivemos é a barbárie. É traição e
deslealdade aos cidadãos. O executivo, o legislativo, o judiciário, a cada dia
nos deixam mais deprimidos pela falta de respostas dignas de instituições que
deveriam honrar a vida dos brasileiros. ― Osvaldo ficou com respiração difícil
e fez pausa. Em seguida continuou:
― Não aguento mais. Nem tenho
astral pra festa junina, mas fiz canjica. Espera aí, vou esquentar porque o
frio está congelante, nove graus, coitada de você que ainda teve de vir aqui.
― Que isso, Valdo, tá me estranhando. Amigos atravessam oceanos, mares, lugares e apesar dos pesares ainda somos privilegiados, estamos vivos, e nossas irmãs e irmãos que se foram, hein? Quanta loucura vivencio todo santo dia. Fake news anda às turras por aí, inda mais com a queda do “minto muito” ― Dodô e Osvaldo relaxaram com risadas.
―
Canjica saindo fumegando.
― Huuumm! Tem que me contar o segredo.
A canjica está deliciosa.
― Não conta pra ninguém, coloco
pitada de noz moscada.
― Uau, está saborosíssima!
Enquanto comiam à distância prudente, interrompiam para conversa fiada.
―
Valdo, lembra aquele amigo meu que anda escrevendo uma novela? Acho que
comentei com você. Ele me perguntou esses dias o que eu achava do casamento com
muitos anos de convivência. O personagem que ele descreve está na nossa faixa
de idade.
― Dodô, você está sendo irônica! É
bem mais jovem que eu. Relembro uma conversa nossa ano passado, quando veio
aqui, talvez julho ou agosto ... e em pensamento veio-lhe a cena ...
― Gostou do poema do anjo
pornográfico que te enviei, Dodô? ― Osvaldo inquiriu enquanto higienizava as
mercadorias na cozinha. ― Credo em cruz, com essa pandemia tô vendo quanta
sujeira vem, olha só! ― Dodô se aproximou da porta e ele mostrou o papel toalha
úmido de álcool, imundo.
― Anjo pornográfico? Quem? Dalton
Trevisan? Nelson Rodrigues? Você me enviou algo deles? Não me lembro.
Osvaldo então declamou:
“...
exércitos correndo através
de ruas de sangue
brandindo garrafas de vinho
baionetando e fodendo
virgens.
...
há tamanha solidão no mundo
que você pode vê-la no movimento lento dos
braços de um relógio.
pessoas tão cansadas
mutiladas
tanto pelo amor quanto pelo desamor.
as pessoas simplesmente não são boas umas
com as outras
cara a cara.
os ricos não são bons para os ricos
os pobres não são bons para os pobres.
estamos com medo.
...
ou do terror de uma pessoa
sofrendo sozinha
num lugar qualquer
intocada
incomunicável
regando uma planta.
As pessoas não são boas umas com as outras."
― O poema chama-se “o estouro”. Bukowski repete
esta última frase três vezes. Dá pra sentir a dor, essa ênfase martela na nossa
mente, ― e continua a declamação após as três frases iguais:
"suponho
que nunca serão.
não
peço que sejam.
mas
às vezes eu penso sobre
isso.
as
contas dos rosários balançarão
as
nuvens nublarão
e o
assassino degolará a criança
como
se desse uma mordida numa casquinha de sorvete.
...
tem
que haver um caminho.
com
certeza deve haver um caminho sobre o qual ainda
não
pensamos.
...
quem
colocou este cérebro em mim?
ele
chora
ele
demanda
ele
diz que há uma chance.
...”.
― Ah! Não sabia que o poeta estadunidense, Charles Bukowski, era chamado anjo pornográfico. Adorei o poema, mas discordo dele, não me sinto sozinha. Já te contei que sempre gostei de morar sozinha e já cinquentona casei, vivi com meu marido por alguns anos um casamento interessante e aventureiro, devido problemas cardíacos ele se foi. Novamente me vi sozinha.
― Não é o seu caso, certamente.
Mas existe muitas pessoas sozinhas, solitárias, sem ninguém. ‘Viver sozinha’ é
diferente de ‘morar sozinha’.
― Como uma pessoa com medo iria
se preocupar em regar uma planta?
― Talvez seja a forma dela se
livrar do medo.
Dodô ficou pensativa. Osvaldo finalizou.
― Os poetas usam a palavra
carregada de significação, capaz de provocar, modificar, iluminar a realidade
do mundo. ― Em seguida mudou de assunto:
― Nós temos o demônio
pornográfico, né? ‘O demônio anda desgovernado por nossa boa terra, triste realidade, mas o que
esperar de um presidente que falou 34 (trinta e quatro) palavrões numa reunião
ministerial. E agrediu a imprensa mais de 200 (duzentas) vezes por não aceitar
qualquer tipo de crítica.’ Você viu a última, quando perguntado sobre o
dinheiro recebido pela esposa? Uma pergunta que esperamos resposta. ‘A palavra
aqui revela pobreza de vocabulário, cultura rasteira e falta de argumento. É
isto, mas não deveria ser.’
― Valdo, a coisa está feia. Como
o caso da garotinha de dez anos, que decepção, instituições que deveriam
protegê-la, olha o que fizeram. Quer dizer, o ministério dos direitos humanos,
o hospital público, uma tal professora e até um tal padre usaram palavras sobre a menininha como
se comessem casquinha de sorvete. Mulher, criança, não são mercadorias. O que
esse governo pensa? Nós estamos cansadas de ser usadas como bode expiatório
para a fraqueza de homens e até mulheres desse tipo.
― Quantas crianças, meninas e
meninos violentados todos os dias neste país. Que família tradicional é essa
que permite tais tratamentos e não luta por políticas públicas de proteção a
elas? ― Osvaldo complementou.
― É isto, como você disse, mas
não deveria ser.
Os dois amigos desconsolados com
a miséria do mundo, da qual os poetas bem conhecem, emudeceram-se, e pensativos
ficaram com palavras engasgadas. Osvaldo com espírito inconstante e paz
inquieta deu voz:
― Encontraremos o caminho e a
hora não tarda.
Osvaldo se envolveu na névoa da lembrança
e se assustou com Dodô perguntando:
― O que diria para o meu amigo
escritor, sobre convivência no casamento? Ele acha possível o casal não ter
mais afinidades físicas, e ainda existir o amor espiritual.
― Pensei em mim também. ― Osvaldo
respondeu. ― Por que as mulheres se cansam de fazer sexo e os homens não?
― Acho que as mulheres assumem os gostos dos homens e topam fazer sexo quando eles querem e como gostam. Mas não vejo a contrapartida do lado deles ― que são a atenção carinhosa, a expressão do afeto. Parecem que só pensam “naquilo”. Esquecem que para ter o que querem, devem fazer um esforço e dar à mulher o que ela sente falta, que é carinho, atenção, afeto. A gente se esforça para agradar o companheiro, por que ele não pode se esforçar para agradar a gente? Por que o homem não enxerga que tem parcela importante para a igualdade de desejos? Assim ambos ficariam satisfeitos. O homem no estilo de pouco diálogo, dificuldade de se abrir, de expressar sensibilidade, fica preso ao seu único interesse egoísta, sexo, como instinto apenas. Quais são suas conjecturas?
quarta-feira, 5 de maio de 2021
não se perca na multidão – 1 ano e 60 dias em foco (CENA 47)
Em
três de março, Bia relembrara passeio que fizera ano passado, quando a pandemia
ainda não pedia tantos cuidados como hoje. Hoje é necessário para quem valora a
vida. A noite parecia estrelada como àquele dia em que saíra para um passeio
com Josué, onde ela notara a mudança repentina de falta de público.
―
Josué, a noite mostra o ocaso, veja só que céu. Somente nossa realidade
transformou-se de tal forma que chego a relacionar ao caos. Um caos provocado por
inábil atuação do governo, desde o início a gente vê. Não somente eu, você também,
todas as pessoas, das mais simples às mais esclarecidas, todo mundo está vendo.
Apenas o segmento amalucado continua abilolado e sai por aí sem prevenção. Como
estará aquele comércio?
―
Tem... muitos locais fechados, placas de aluga ou vende. Muitos faliram.
Tiveram ajuda governamental?
Sentou-se
enquanto Josué foi pegar cerveja na geladeira.
―
Está bebendo quase todo dia. Isso não é bom, diminui imunidade.
―
Bia, esse é meu fim de noite completo há ano. Comemoro que ainda vivo, sei lá
amanhã. Já não aguento a estreiteza de caminhos. Não vislumbro esperança por
mais que eu diga, calma Josué, esperançar, esperançar. Com as variantes da
doença sendo criadas devido a extensão de casos, ninguém está livre de parar em
UTI e pior, não ter leito, não ter oxigênio, como aconteceu em Manaus. As
pessoas amarradas às camas e nem medicamento para sedação. Eu quero o direito
de viver e a conduta de governos é cada vez gastar menos com a saúde e o SUS.
Isso tem de mudar, urgente. ― A conversa girava em torno das transformações
exigidas pela onda pandêmica no mundo. ― Já se viu que sociedades que investem
em saúde têm seu diferencial, veja Cuba, por mais que a ilha seja sacaneada com
as restrições dos países, a saúde é um bem que a cidadania pode contar. Esse
neoliberalismo maluco que beneficia só poderosos tem que ter fim.
―
Será que este ano poderei ir à Manifestação de oito de março, das Mulheres?
―
Provável tenha eventos on line, mas
presencial, duvido.
―
Além de arriscado, tem as regras de restrição. Que ano esse, entramos bem.
―
Bem lá no fundo do poço. Continuo trabalhar porque ninguém me auxilia em nada não.
Eu que não corro atrás pra ver. O presidente esteve aqui em férias e gastou rio
de dinheiro que poderia me ajudar e aos outros pescadores, mas as mordomias não
chegam em nós. E ainda aglomerou trazendo vírus pra cidade.
―
O que os pobres podem fazer? Trabalhar é única solução, continuar a pesca hoje para
ter comida amanhã. Não tenho cartão corporativo pra abater contas.
Às
vezes o silêncio era a conversa em sua linguagem de muito dizer. Cada dia o silêncio
de cada um em sua ilha se tornava imenso. Bia olhava, observava o marido, a conversa
que não fluía e continuava indecifrável. Josué aconchegado ao seu lugar
costumeiro, o guardar a si conhecido, perguntas não respondidas com maior
intensidade. A mulher levantou, resgatou vasilhames da mesa e foi à pia. Um silêncio
que era vasto a cada dia por saberem apenas daquele dia. O amanhã nebuloso.
Em
dezessete de março deu-se um ano de pandemia pela anotação em sua agenda.
Quando houve a quarentena local. Bia disse, como é estranho. Primeiro ano que
se recordava não comprar agenda. Usara a mesma, a de 2020, escrevera ao lado
apenas a mudança dos dias da semana. E esse dia, uma quarta-feira em 2021, era
o segundo maior em quantidade de mortes em apenas um dia, quase 2.800. O Brasil
totalizava mais de 285 mil mortes.
Enquanto
isso, os ônibus continuavam abarrotados de trabalhadores. A burguesia ia às
passeatas de carrões pedindo que não houvesse quarentena, pensando em seus negócios.
As mortes aumentavam à medida em que a medida irresponsável era adotada. Calma
e caldo de galinha não alimentavam pensamentos, pois as catástrofes iam
avolumando. As pessoas estavam exaustas, o corpo médico de todo e qualquer
lugar do país trabalhava sob forte pressão e sem descanso todos os dias. Eis
que em 24 de março o Brasil chegou aos mais de 300 mil mortos e mais de
12.183.000 milhões de casos (provável subnotificado).
O
ano difícil em 2020 para quem não tinha trabalho, mas conseguiu auxílio emergencial
de 600 reais foi tolerável. Em 2021, ainda nesta data, milhões de trabalhadores
sequer tinham qualquer auxílio. O governo iria começar em abril e com valor de
apenas 170 reais, em média. Muitas pessoas foram cortadas do auxílio, apesar do
desemprego ser ainda maior. E fechamento de muitas indústrias. E o povo não era
escutado pelas instituições que ficavam em seu individualismo, esquecendo-se do
papel de nação, o cuidado com seu povo.
O
presidente continuava negacionista, ainda dizia, o povo ia ver que ele tem
razão, errados são governadores e mídia que insistem no isolamento. Os dias não
pareciam os mesmos porque a cada dia o número de mortes assustava pelo aumento
diário. E, além disso, pessoas estavam sofrendo repressão dos órgãos de governo
por expressar a realidade nua e crua ao olhar de qualquer um. O presidente dizendo a curva vai abaixar. E
reclamava de usar máscara. E continuava aglomerar.
―
Que está escutando, Toninho?
―
Ai, mãe, continuam as trágicas notícias e nem mesmo algo para alento da gente. Continuamos
dançando à base de fake news de um
lado e notícia cruel em todo fim de noite com aumento diário de mortes a cada
dia. Parece não ter fim nossa agonia.
―
Filho, sei que você está esgotado, ansioso.
―
Ando tendo pesadelos. Amigos indo embora, amigos de amigos, parentes próximos
de nós. Quando grito, me vejo dentro do buraco, em pânico, às vezes chorando,
pois mãe, ninguém está livre da coisa. ― Toninho continuou:
―
Está difícil sonhar neste país. Pés plantados no chão é algo difícil entre nós,
porque hoje é três de maio e são mais de 408 mil mortes. O Brasil está perplexo
e ao mesmo tempo moribundo. Isso é loucura! Mãe, pra onde caminhamos?
sábado, 3 de abril de 2021
quatr’estações dum coração mineirin
30/03/2021
quarta-feira, 31 de março de 2021
aos que têm sede de viver (CENA 46)
― Sinceramente, Bia, que
catástrofe esse vinte de fevereiro com quase 250 mil mortes. O que será que
vem? Dormindo a gente penetra numa fundura de dor. Essa noite acordei em sobressalto,
imagina que...
Poeira ao vento. Quando se quer qualquer coisa tem de procurar? Pois que ela procurava na aroeira, a do canto do quintal. Ouvira falar das proezas da quitanda, além de pimenta rosa o tronco é tiro e queda pras doenças do estômago, muitas e até do vulgo estômago virado, de até cachorro tinha. Nisso foi inventar de catar casca do tronco pra fazer chá e destemida não ouviu o que a avó tinha contado muito tempo de trás no quintal, no tempo de sua meninice, de em certas noites, quem visse, rezava muita novena e novena sem fio de parada pra modo de levar pra longe as mazelas. Porque a gente que olhasse ficava abobada e não emitia sombra de palavra, nem obrigada. Isso é coisa de vó, solene no contar da prosa.
Ela não se abestalhava com poeira pouca. A vida aí inteira para se caminhar pra frente. Reza boa arreda pé do medo. Era de noite e não sabia se de certa noite. Foi toda sorriso, desceu a escada pé ante pé, sem se esgueirar, cheia de hábil amor por si. Nada há de me avexar que sô muito é mulher macho, mesmo sendo fêmea, cabra arretada e com umas rezas, zelo de fé e crédito na glória divina, eu sem espanto me garanto. E como silêncio ia quieto, imaginava que não se sabe o que a vida está dizendo, mas quando se levanta e se põe a caminhar, sabe que não está só.
Ela pegou o vazio e preencheu com música. Laranja madura na beira da estrada. Tá bichada. A própria voz escutada. Mas diziam que aquilo assombrava até cabra macho e que deixava à mostra o coração, o peito abrisse e lhe visse as entranhas em fel que tanto amarga. Certo que haveria de achar e reconhecer a arvinha mesmo naquele breu. Às vezes a escuridão serve pra alumiar e curar nossas cegueiras e pode colocar os demônios para fora enquanto é tempo.
Quando de cara no tronco que procurava, ela viu surgir de trás um meio rosto. O meio rosto trazia meia face de palhaço de alegria de circo, enganava mas num era. Era cara de patetice feito laranja bichada e sorrira abobalhado oferecendo como dádiva a palurdice pra patriota ouvir quando não tem miolo nem senso, nem se liga duas ideias, na verdade bufonea e atrofia o intelecto. Era esse o tipo e quando olhasse se transformasse em um. Puro espelho. Ela, por demais curiosa, fechava a mente e a meia fronte desapareceu ao seu cantar o credo, reza altaneira.
Visualizou do outro lado do tronco e quando
meia face de demônio se atreveu mostrar satânicas unhas e dentes e abriu a
bocarra tentando engoli-la numa gosma verde oliva, ela disse, sai monstro, eu
digo não. Eu me vou que esperar não é
saber. Escutou a voz vinda dos tempos. É a volta do cipó de aroeira no lombo de
quem mandou dar. Rezou padre nosso, ave Maria e pernas para que te quero, não
aceitava ser mentecapta e na carreira a lua alumiou e adentrou em casa sem voz na
goela, sã e salva.
― Ruza, você padeceu durante o
sono. A realidade açoita a gente e de noite arde. Sonhei uma noite dessas um
troço sem pé nem cabeça que vou te contar. Não é só você que anda fustigada
durante a noite...
O tormento atravessava. As
pessoas atingidas estavam como se não se conhecessem mais. Os ‘normais’ que na
verdade sempre foram estranhos ficaram ainda mais estranhos. Alguns poucos desses
estranhos mais inquietos e indecisos, alguns outros se moldaram à aparência de
soldados desalentados com a cabeça ensanguentada em vermelho vinho. Dispostos
lutar por nada ou coisa nenhuma que valesse e destruir a quem tropeçasse ou
discordasse.
Dentro de casa as gentes se achavam
seguras. Não antenaram para ameaça. Bem ao meio do terreiro, sentada na praça,
em cadeira alta, sua alteza ‘M’ exigia milhões, milhos gigantes
com bastante grão que reluzia ouro, prata, para colocar nos balcões junto com as
laranjas lima. Sua alteza enchia a bolsa e os bolsos. Ao seu comando o bobo da
corte pulava, corria, fazia e acontecia. O olhar global de soslaio se remexia com o cristalino do olho opaco e vidrado também queria milhão.
Do outro
lado do terreiro mortos andavam mais vivos do que os mortos-vivos estranhos sem
reação nenhuma. A área plana empapuçada de caminhantes em andrajos no fantasmagórico
trajeto. Cheiro e morticínio. Havia muitos mortos-vivos sem rosto e de barriga
vazia, mas esses ninguém via.
A
chegada de bacurau fez a tormenta arrefecer
e a ave em seu voo precipitou o cair de chuva estrelando flores-de-esperança, flores-de-beleza
aqui acolá e mais tantas flores em pétalas azuis, brancas, rosas, multicores espalharam-se
no chão antes árido. O pássaro vivera o pânico e acenava voo com intuito de espalhar
o mínimo, nada além do mínimo néctar e faria lima espremer para distribuição
aos que sede têm de viver.
― Bia, seu sonho é mais louco que
o meu. Quando é que vem sonho com paisagem tranquila aonde se possa respirar à
sombra de árvore, ouvir o passarinhar, sentir o crec crec de folhas e descansar dessa longa jornada?
― Depois que Josué me contou o
pesadelo dele com uma ave, acho que fiquei impressionada. Existe pedras
no caminho, Ruza, muitas.
As mulheres se despediram. Bia
abriu o portão e ainda acenou à Rosária que falou:
― Vê se lembra sonho ameno. ― E
deu um riso enquanto caminhava. ― A gente se vê no próximo sábado então.
domingo, 21 de março de 2021
o pobre reflete dores e aflições de Maria e José (CENA 45)
Dona Cotinha saiu da janela e se encaminhou até à porta. Recebeu as mulheres à distância protetiva, pois sem máscara.
Dona Cotinha vivia sozinha antes da pandemia dar seu arregaçado riso destruidor e a filha viera viver com ela após perder emprego e não ter como pagar aluguel. Nem sei dizer pra vocês, meninas como ando me sentindo. Às vezes me pego pensando qual é o objetivo viver enclausurada, sem convivência com vizinhos e amigos, sem nossas folias da comunidade, ah! como faz falta. Tem hora que sinto uma lentidão no passear do relógio, o corpo nem querendo obedecer e fazer o que tem de ser feito em casa, parece que ando anestesiada e caminhando que nem autômato para lá e cá. Que vida essa que ‘tamo’ vivendo, hein, é muito louco tudo que a gente presencia.
Nosso povo com tanta dificuldade de viver e só se escuta nas rádios e tevês que os ricos tão cada dia ainda mais ricos, pra vocês verem, meninas. Por que eles não têm solidariedade por nós?
Eu fico me perguntando. Pra que serve tanto dinheiro se cada vez nem pobre, nem rico tem acesso a lugar nenhum por causa das quarentenas que vão e vem, pra quê? Para onde a gente tá caminhando com tanto retrocesso em nossas vidas?
As forças de polícia também vêm pra periferia e matam os nossos tanto quanto o covid e desrespeitam ordens sem ninguém além de nós reclamar. Tá difícil.
Cheguei na velhice achando
que poderia descansar da lida exaustiva de criar os filhos, agora vejo
meus filhos dependendo de ajuda miserável desse programa de governo por estarem
desempregados. Minha filha mais nova, na flor da idade não encontra trabalho de
jeito nenhum, e olha que ela teve estudos graças aos programas do governo de
antes de 2016. Agora esses terríveis que vieram depois só querem destruir tudo o
que nos deu chance de diminuir um pouco a dor da pobreza.
― Concordo com’a senhora, as
coisas voltaram a ser muito difíceis pra nós da periferia. Talvez quando essa
dificuldade chegar na classe média, ela se levante e vá pra rua fazer o que a
gente sempre fez e que ela usufrui quando a gente consegue. Não vou arredar pé
daqui mais não, cansei, como a senhora diz que está cansada. Essa turma da
classe média se juntou aos ricos e à mídia para destruir nosso país, agora eles resolvam o diabo que plantaram.
Rosária se afastou da conversa
enquanto Bia discutia os problemas diários. Parecia enxugar os olhos, teve
impressão Bia que seguiu seu distanciamento até o portão.
Após assistência a Dona Cotinha,
Bia e Rosária foram pelo estreito caminho até a próxima casinha.
― Ruza, que que houve? algum
problema? posso te ajudar?
― Enquanto você conversava com
Dona Cotinha, fiquei pensando no prefixo ‘inha’
do nome dela. Afastei para não interromper a conversa.
― Dona Cotinha é conhecida. Vizinha de minha casa da infância. Nossos pais são próximos e quando
mudou de lá, os pais de Josué foram morar na casa. Ela é como parente. Aliás,
nosso povoado é muito unido e graças a isso temos conseguido conviver com as
dificuldades atuais. Que te fez associar o ‘inha’
de Dona Cotinha?
― Lembrei do nome que costumavam
dar à minha mãe. ― Rosária então foi contando a história.
Casebre em polvorosa. Afinal
chegara o Natal. Todos esperávamos com euforia a nossa mãe laboriosa dar
jeitinho que tivéssemos dias felizes. A mãe se esforçava um bocado a mais,
lavava roupas ali, faxinava dacolá e no dia do bom menino, lá estava a esperada
surpresa das crianças, que sapecas corriam pra rua a mostrar o que o bom
velhinho escolhera. No fundo sabíamos vinda de nosso pai e nossa mãe.
Não importava o chão pobre, ali o
amor era ordem natural vinda de Dona Santa e do sorriso prestativo do Seu Jair
(nem tudo é perfeito!). Os cinco filhos pequeninos, saltando idade ano a ano a
partir dos dois em escadinha. Dona Santa. Nome que lhe puseram, pois do tempo
de auxiliar de enfermagem trouxera o manejo na aplicação de injeção. Quando os
vizinhos necessitavam lá estava ela com a caixinha de metal e seringa
esterilizada de casa em casa, onde lhe acenassem. O nome veio daí, do prazer em
servir a comunidade em redor. Dona Santa ou Santinha não tem preço, diziam. Era
gratuidade no rosto amigo, sempre disposta, sempre risonha, não riso
escancarado e vulgar, mas a risada dos bons, dos afetuosos, dos coirmãos.
Tratava a todos com o respeito que todos mereciam.
Até mesmo Seu Manoel, de quem era
inquilina, tratava Dona Santa com jeito especial. Seu Manoel e seu filho Noel
residentes na chácara em cerca aos barracos que alugava, chamava a molecada
para folia, correria, brincadeiras e no final, amontoada nas mangueiras e
goiabeiras, ou catando pitangas e jabuticabas saía lambuzada, e o sotaque do português
se expressava ‘ora, ora, pois, pois’.
A gente dá
muito valor a mãe da gente. Não era diferente lá em casa, onde a mulher do lar
comandava hora do banho fazendo o possível na economia da preciosa água.
Arrumava a gente como princesa e príncipe daquele reino. Ali a gente brincava
até ela designar hora de dormir.
Em nossa
casa sempre havia festa. A família reunida entre vizinhos que da família se tornaram
era motivo de festa. A convivência e as palavras expressão de amizade. Lugar de
proximidade e escuta, minorando o suor do dia a dia do povo trabalhador. Era
ali guarita hospitaleira.
E a gente se alegrava ver a mãe
dar risadas, o vibrante corpo exalar prazer com’a vida construída ao esforço.
A gente via, às vezes, ela ao canto em silêncio. A solidão está em todas as pessoas.
A solidão estava em minha mãe. Dona Santa que viera de Goiás Velho. Vai ver
saudade do Rio Tocantins, de proezas de menina que ficaram lá trás quando o pai
permitia brincadeira, do momento que de cima da árvore o corpo flexível voava e
aos gritos de liberdade mergulhava no rio. Saudade que mesmo gente crescida não
esquece.
Quando penso em natal penso em
minha mãe. Seus natais eram tão diferenciados, simples e ousados e todos
ficaram em minha memória. Dona Santa vive. Nossa mãe vive.
― Nossa, que história, Ruza. Legal ter mãe com nome de santinha. Você contando a gente vê a aparente e santa pobreza, que nem a da Sagrada Família. O povo pobre reflete as dores e aflições de Maria e José nos esforços em proteger ao filho de Cristo. Então hoje que vivemos tanta tragédia com a covid, é tão visível a miséria em redor, né! Por que quem é bem aquinhoado não solidariza com nossa dor, Ruza?
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021
soltando os cachorros (CENA 44)
‘A cachorrinha pegou a latir,
nesse ofício que quase todo cão tem,
de ser presumido valente.
Com licença de João Guimarães Rosa’ e
Adélia Prado
― O que vem nos revelando esse
começo de 2021, Bia, dá pra enlouquecer. Caminhamos pra duzentos e cinquenta
mil mortes pelo corona num contínuo descaso desse governo às nossas vidas. Vinte
de fevereiro e ouço só notícia ruim, e corro daqui dacolá do povoado para
ajudar as famílias. Além de Manaus sem respirar, aumento de casos em tantos
outros lugares também. E aparecem as variantes do corona. E as dúvidas das vacinas não dar conta da mudança do vírus. Tanta fake
ainda, a cloroquina ainda, a ivermectina ainda, a teimosia em não usar máscara,
a ... Precisamos de basta.
― Basta, isso mesmo Ruza, basta, está difícil viver esse clima, estamos esgotadas mas esse esgotamento não é de cansaço, é de ver a inércia desse governo e legislativo que não dão conta de evitar os desastres da pandemia, que até hoje não definiram o auxílio emergencial e querem aprovar a merreca de 250 reais, um abuso, com tanta gente em dificuldade e sem opção. Agora pra despistar, somente falam do tal deputado preso por vociferar contra instituições. Enquanto isso as pessoas morrem, não têm vacinas, o governo não têm planos, estamos ao Deus dará. Queremos clareza sobre vacinação, quantidade de vacina para todos brasileiros. Não é esse miúdo que reverberam nas notícias que nem dá pra vacinar muita gente. Precisamos aprumar.
― Exigimos elegância, respeito e
consideração para com o povo. O povo não é tratado assim. Aqueles que vendem
nossas riquezas são tratados com elegância, respeito e consideração. É absurdo.
Aquela cantora diz ‘é muito difícil lidar com esse culto de morte dessa época
que vivemos’. Está certa. Caos e nada além de caos. Em nossa cidade os leitos
entraram em saturação, estão lotados. Quanta incompetência, cadê a ótima logística
que alardeiam pelo país?
― Desde quando começou o ano não
temos um pingo de paz, somente desastre e desatino nesse país largado e sem
ninguém para pegar o leme, credo viu, ando de cuca quente, procuro ajudar, e nem
assim descubro saída. O natal e ano novo passamos escondidos dentro de casa e
agora está mais terrível que antes, sem as pessoas serem socorridas tanto na
saúde quanto no dinheiro para o mínimo digno a cada um. Onde esses ‘gestores’
andam com a cabeça? nas nuvens?
― Não tivemos natal, ano novo,
não tivemos carnaval, e nem teremos semana santa. Será o ano inteiro nessa
vagareza de decisões que vêm de cima? E ainda assim existe apoiadores. Não
quero crer nessa insanidade, deve ser porque são mal informados, acreditam nas fakes, só pode.
― Bia, não tem jeito. Solte os
cachorros. Eu solto os cachorros também. Já estou com dificuldade de respirar,
e se pego o corona nesse ambiente saturado dos atendimentos de saúde pública?
Nem quero pensar e nem posso ficar em casa, como muitos podem estar em suas macias almofadas. Preciso trabalhar mesmo na falta de oxigênio.
― Ruza, ali
está a casa de dona Cotinha, vamos lá saber do que ela precisa. Esse é nosso
trabalho, a gente reclama mas não se acomoda, nem se acovarda, corre atrás de
solução. Talvez donas de casa saberiam administrar melhor que esses aí no poder.
― Nem tem
dúvida! Vamos lá! Dona Cotinha, tudo bem com’a senhora?
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021
a luz deve brilhar a todos (CENA 43)
A convivência
com aquele homem modificara rotina de Luiza. Tem agora um amigo. Osvaldo trazia
dúvidas e contradições em seu pensamento sem vislumbre profundo do amanhã. Sentada,
com pés descansando no murinho da sacada relembrara velhos tempos.
Luiza e Fábio curtiam a natureza verdejante abaixo da
grande árvore de frutos em aspecto rosáceo-avermelhado. Apaixonados, esquecidos
dos compromissos e do que a sociedade esperava de cada um. Cada um de origem
diferente e naquele momento em irmandade do amor. Afinal a luz deve brilhar a
todos.
Ao longe apreciavam a paisagem digna de quadro divino. As
montanhas cobertas em tonalidade de pincel nos verdes caminhados entre pálido e
amarelo. O céu claro com leves nuvens desenhavam estradas suaves e se
imaginavam naquele local livre de preconceito. A Amazônia em sua exuberância
aos caprichos da paixão.
Ela vinda de indígenas ianomâmis, ao sol lançado entre
folhas trazia luz à sua pele dourada. Ele cara pálida comum boquiaberto com a beleza
de mulher que conhecera no local de trabalho. Uma menina-mulher, a bem da
verdade. Mas o que havia nela para transformar o dia a dia ele se perguntava. A
vida dá sempre chance pra gente fazer o que quer. Queria estar com ela. Ambos em
sintonia com a agreste beleza e aos poucos encontrando-se um ao outro. O desejo caminhava
devagar e ela sentia o medo aparecer aos toques da mão carinhosa do namorado
mesclado ao interesse de conhecer a fonte incandescente. Tinham sede. Eram
jovens descobridores.
A tentação surgia e permitiam-se o estado original.
Tentar tantas vezes o lema humano transpassava corpos livres. Bebiam de fonte natural.
Enquanto isso Osvaldo levara o vasilhame calmamente.
Respirava sem sofreguidão e pudera, me esqueci de fumar tantas vezes como de
hábito, até nisso Luiza me ampara. A mulher fazia a vida ganhar cores as quais pensara
desaparecidas de seu cotidiano. Uma amiga nesse vale longínquo vale. Não sei
por que estranhar amizade entre mulher e homem. Por que será dúvida para ela?
Cuidava da lavação da louça e viajava na água jorrando.
Cândida levara Osvaldo a conhecer praias da ilha, a
Joaquina, Mole, Galheta, Moçambique, Daniela, Campeche, Canasvieiras, Jurerê,
Ingleses e tantas outras. Os banhos ao sabor das ondas jorravam e os dois riam
feito criança.
Osvaldo fascinado com a namorada. Sua perfeição acima de discussão. Na realidade respeitava-a como é. O período de bulling lhe ensinara tanta coisa. E o
caráter da moça impecável. Ela sofrida do tratamento agressivo do câncer e nem
assim perdera a redondeza das formas. Os
dois se pareciam e se gostavam. Era incondicional a admiração de um e de outro.
A paixão elevou o afeto. Casaram-se e a fase de dor passou para ambos.
Tem razão o que se diz de tentação. A permissão de tentar
tantas vezes transpassa corpos livres. Jorrava água de fonte natural.
Assustou-se com chegada repentina de Luiza dizendo:
― Valdo, fiquei acostumada à paz, mas a obrigação me
chama. Tenho de ajeitar casa e trabalhar amanhã. Está de pé nosso
encontro on line na data natalina, não
é?
Osvaldo fechou a torneira. Limpou as mãos, virou para
Luiza e meneou a cabeça. Ela com pertences pendurados ao ombro enviou beijo
entre máscara e saiu. Ele acompanhou a saída e voltou ao enxague da louça. Após
apanhou cafezinho, o cigarro e se dirigiu à varanda. Vamos ver o que nos
revelará 2021, disse com rosto questionador.





